O Dia Nacional da Fotografia e do Fotógrafo, comemorado em 8 de janeiro, remonta à chegada do daguerreótipo ao Brasil, em 1840. O equipamento veio a bordo de uma embarcação francesa, e o abade Louis Compte fez os primeiros daguerreótipos brasileiros no Rio de Janeiro em 16 de janeiro daquele ano, menos de cinco meses depois de a técnica ser anunciada em Paris. Os registros colocam o país entre os primeiros da América Latina a produzir uma imagem fotográfica. Historiadores divergem sobre o dia exato do marco (citam-se 7, 8 e 16 de janeiro); a comemoração ficou fixada em 8 de janeiro.
Pouco depois, o daguerreótipo chamou a atenção do jovem imperador. Dom Pedro II adquiriu o próprio equipamento em março de 1840, aos 14 anos, e é lembrado como o primeiro fotógrafo brasileiro, título que o distingue de Compte, o francês que fez as primeiras imagens no país. Com o tempo, o monarca tornou-se um dos principais colecionadores e financiadores da fotografia no século XIX, custeando profissionais e cientistas.
Um imperador atento às novas tecnologias
O interesse de Pedro II não se limitava à fotografia. Ele acompanhava de perto as inovações de seu tempo e abriu caminho para que algumas chegassem cedo ao Brasil. O imperador testou o telefone de Alexander Graham Bell na Exposição de Filadélfia, em 1876, e o país foi um dos primeiros a adotar o aparelho: um decreto imperial de 1879 autorizou a primeira companhia telefônica nacional. No mesmo período, o Rio de Janeiro recebeu uma das primeiras instalações de iluminação pública elétrica do país. O monarca também mantinha equipamentos de observação astronômica.
O título de “Fotógrafo da Casa Imperial”
Para prestigiar o ofício, vários fotógrafos do período receberam o título de “Photographo da Casa Imperial”, um reconhecimento de excelência técnica. Nomes ligados à fotografia do Império, como Marc Ferrez, Victor Frond e Militão Augusto de Azevedo, ajudaram a documentar o país. Ferrez consolidou-se como o principal fotógrafo documental do período, com registros que iam de ferrovias à urbanização do Rio, feitos com câmeras panorâmicas.
A Coleção Thereza Christina Maria
O maior resultado desse esforço é a Coleção Thereza Christina Maria. Com cerca de 23 mil imagens, segundo a Biblioteca Nacional (outras fontes citam de 25 mil a mais de 30 mil), o acervo foi doado por Pedro II à instituição após o exílio, em 1889. Foi o primeiro acervo documental brasileiro inscrito no programa Memória do Mundo, da UNESCO, com registro internacional em 2003. O conjunto tem caráter enciclopédico: reúne imagens da escravidão, do cotidiano urbano e registros arqueológicos feitos em viagens ao Egito, atribuídos pelo material ao próprio imperador. A dimensão e a preservação desse arquivo ajudam a explicar sua relevância. Segundo o material, Pedro II ainda trocava retratos com nomes como Charles Darwin e Louis Pasteur.
Como funcionava o daguerreótipo
A dificuldade técnica torna o acervo ainda mais notável. O daguerreótipo, primeiro processo fotográfico comercial, registrava a imagem sobre uma placa de cobre banhada a prata. Para captar a luz, a placa precisava ser sensibilizada com vapor de iodo e, depois, revelada com mercúrio aquecido. Sob sol forte, a exposição variava de 5 a 30 minutos, o que exigia que o modelo permanecesse imóvel por todo esse tempo. Cada retrato era uma peça única, sem negativo que permitisse cópias.
O sentido da data
O Dia do Fotógrafo, em 8 de janeiro, marca o início dessa trajetória e o momento em que o Brasil passou a se registrar em imagens. Num período de multiplicação de fotografias geradas por computador, a data também recupera a discussão sobre o papel de quem fotografa na escolha do que merece ser registrado e lembrado, o mesmo gesto de seleção e sentido que sustenta a curadoria fotográfica.


