Foto: Ralf Corrá

Vestígios e Extremos Cotidianos: a conversa sobre fotografia autoral no Câmera e Luz

No lançamento de dois livros autorais no Câmera e Luz, o momento mais forte não estava nas páginas: Ale Ruaro contou que, em 2009, queimou toda a obra que tinha feito até então para recomeçar com uma fotografia que fosse sua.

O momento mais forte de uma manhã de lançamento de livros no Câmera e Luz não estava nas páginas. Foi quando Ale Ruaro contou que, em 2009, queimou todo o trabalho que havia produzido até então, negativos, cromos, DVDs e HDs. Não como performance, segundo ele, mas como catarse: a ruptura necessária para começar a construir uma fotografia que de fato o representasse.

A cena ajuda a entender o eixo do encontro, que reuniu associados, fotógrafos convidados e o público para o lançamento de dois livros autorais e uma conversa sobre processo criativo. De um lado, “Vestígios”, de Ruaro; de outro, “Extremos Cotidianos”, de Antonello Veneri. Os dois projetos têm em comum a atuação do design, de Alyssa Ohno.

Dois livros, uma conversa

“Vestígios” é o 11º livro de Ale Ruaro e reúne imagens de 2009 a 2025, dezesseis anos de trabalho. Não segue ordem cronológica: é uma edição guiada por uma linguagem densa que percorre toda a produção do fotógrafo e torna cada imagem reconhecível como sua. O design é de Alyssa Ohno, especializada em livros de arte e companheira de Ruaro. (O recorte que começa em 2009 coincide com o ano em que ele diz ter queimado a obra anterior.)

“Extremos Cotidianos” é o primeiro livro autoral de Antonello Veneri, fotojornalista italiano radicado no Brasil há quase duas décadas, com base em Salvador. Construído com dípticos e sequências, o livro confronta opostos do cotidiano brasileiro: sagrado e profano, beleza e tragédia, leveza e violência. A curadoria é de Ale Ruaro e o projeto gráfico, novamente, de Alyssa Ohno.

Editar o próprio trabalho

Boa parte da conversa girou em torno da parte mais ingrata do ofício: editar o próprio trabalho. Os dois falaram da dificuldade de escolher entre as próprias imagens, da decisão de confiar essa edição a um editor e dos percalços até a impressão final. A queima relatada por Ruaro é a forma extrema desse mesmo gesto: descartar para encontrar uma voz.

Técnica, analógico e intenção

Outros temas atravessaram a manhã. Os fotógrafos defenderam estudar fotografia com profundidade antes de subverter as regras, e trataram o retorno ao analógico como ferramenta de disciplina criativa. Insistiram também na diferença entre fotografar muito e fotografar com intenção, ideia central da fotografia autoral.

A cor apareceu como marca de identidade no trabalho de Veneri, que descreveu seu encantamento por ela como algo físico e involuntário, comparando-se a uma abelha atraída pelas flores.

Conhecimento na horizontal

O encontro integra a programação regular do Câmera e Luz, que ao longo do ano promove conversas com convidados, palestras, oficinas, saídas e exposições. A aposta é que o conhecimento circule na horizontal, entre quem já produz e quem está aprendendo a produzir. Para quem assistiu, fica menos uma técnica e mais uma pergunta: o que, no próprio acervo, precisa ser descartado para que uma voz apareça.

Previous Post

Ciência e cinema ambiental se encontram no Câmera e Luz

Next Post

Fotografar menos, pensar mais: a lição de Ale Ruaro e Antonello Veneri

Add a comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *