Alexander Landau e a fotografia autoral: “faço foto para mim, não para o cliente”

Alexander Landau tem 37 anos de carreira em gastronomia e resume seu método em uma frase: “faço foto para mim, não para o cliente”. Em entrevista ao Câmera e Luz, defendeu a foto trabalhada contra a lógica do volume, e explicou por que tem migrado para o retrato.

Alexander Landau resume em uma frase o princípio que organiza seus 37 anos de carreira: “Eu não faço foto pro cliente, eu faço foto para mim.” A declaração, feita em entrevista ao Câmera e Luz em junho, não é desprezo por quem paga a conta. É a defesa de um método, a fotografia autoral, num momento em que ele diz ver o mercado de fotografia puxar a profissão na direção contrária.

Landau é um dos nomes de referência da fotografia gastronômica no Brasil, com passagens por revistas do setor e dezenas de livros de culinária no currículo. É dele a frase que abre este texto, e é em torno dela que gira a conversa: o que significa, na prática, manter uma assinatura num ofício que cada vez mais pede quantidade.

Quatro luzes contra uma

A defesa começa pelo modo de trabalhar. Landau conta que costuma levar três, às vezes quatro fontes de luz para uma sessão, enquanto colegas resolvem o mesmo trabalho com uma só. Trabalhar com uma luz apenas, na avaliação dele, é “conta de preguiçoso”. A escolha tem custo de tempo e de transporte, mas para ele é o que separa a foto pensada da foto apenas resolvida.

Esse apego ao processo aparece de novo quando ele relata o caso de um ex-aluno, hoje fotógrafo atuante. O rapaz teria entregado cem fotos de um único dia de trabalho. Questionado sobre a qualidade, admitiu que poucas eram boas, parte ficava na média e boa parte era fraca. Para Landau, o episódio resume uma lógica que ele rejeita: a de que entregar muito importa mais do que entregar bem. Na leitura dele, há um cliente que “quer ser enganado” pelo volume.

Feito é melhor que perfeito

Há duas frases que Landau diz detestar, e ambas viraram lugar-comum no meio. A primeira é “feito é melhor que perfeito”, máxima da produtividade que ele entende como licença para a pressa. A segunda é “o cliente não percebe a diferença”, à qual ele responde de forma curta: “eu percebo”.

A distinção importa porque organiza a hierarquia dele. Quando diz que faz foto para si, Landau não está dizendo que ignora o briefing, está dizendo que o seu próprio olho é o controle de qualidade final. Em entrevista, chegou a afirmar que prefere ganhar menos a sair de casa para fazer uma imagem de que não se orgulha. É uma inversão do raciocínio comercial: o sentido do trabalho, não o cachê, é o que o mantém na profissão.

Essa exigência tem uma raiz estética declarada. Landau cita a paixão pela obra de Caravaggio, o pintor italiano do início do século XVII conhecido pelo claro-escuro, o contraste forte entre luz e sombra. Quando um cliente lhe pede uma foto escura, de pouco foco, ele descreve a encomenda como um presente, porque é exatamente o tipo de imagem que gosta de construir.

O preço de uma régua alta

A insistência na autoria convive com um diagnóstico mais amargo, que Landau apresenta como opinião pessoal, não como dado. Para ele, o mercado “tá rasteiro”. O destino da maioria das imagens migrou para as redes sociais, os valores pagos caíram e a exigência técnica afrouxou. O resultado, na visão dele, é que o trabalho que sabe fazer continua valendo, mas encontra cada vez menos compradores dispostos a pagar por ele.

A recusa ao volume, portanto, é também uma recusa econômica. Quando a foto-fim é uma postagem que dura um dia no feed, o tempo extra de uma quarta luz deixa de ser remunerado. Landau não esconde o impasse, e fala abertamente de uma crise de identidade diante dele. A saída que tem encontrado não é abandonar a gastronomia, mas reequilibrar a rota.

O retrato como respiro

Ultimamente, Landau diz estar voltado ao retrato, por quem se declara “completamente apaixonado”. Não se trata de troca de especialidade, e sim de buscar, em outro gênero, a margem de autoria que parte da encomenda gastronômica deixou de oferecer. Ele também admite os próprios limites: não trabalha com vídeo, formato que hoje domina boa parte da demanda, e não pretende aprender.

A postura ecoa a de outros fotógrafos da mesma geração que já passaram pelo Câmera e Luz, como Márcio Scavone, nomes formados quando a foto nascia para o papel e a tiragem era escassa. O que Landau leva ao público de São José dos Campos, em julho, é menos uma técnica fechada e mais essa convicção: a de que vale a pena fotografar como quem assina, mesmo quando o mercado pede o contrário.

O workshop em São José dos Campos

Essa convicção deixa de ser abstrata em julho. Landau ministra na cidade o workshop Luz para Fotografia de Alimentos, dedicado, segundo a organização, a uma única coisa: desenhar a luz. O formato combina um dia presencial de prática com quatro encontros online à noite, além de um grupo no WhatsApp para acompanhamento da turma.

O encontro presencial acontece no sábado, 25 de julho de 2026, das 9h30 às 18h, em São José dos Campos. Nele, o grupo acompanha de perto todo o processo de uma foto de alimento, do cenário vazio à imagem final, com a construção da luz feita passo a passo. Os quatro encontros online, à noite durante a semana e com horários a confirmar, servem para revisar as fotos realizadas e aprofundar os temas centrais do gênero.

As inscrições estão no segundo lote, com vagas limitadas, até 10 de julho de 2026; depois dessa data, os valores passam ao terceiro lote. A ficha de inscrição e as condições completas estão na página do workshop.

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