Foto: Adilson Martins

Fotografia da Via Láctea: quando a técnica termina e a composição começa

Fotografar a Via Láctea é a porta de entrada. Compor com ela é a porta seguinte, e atravessá-la separa o operador da câmera do autor da imagem. Esse limiar é o centro do método de Ricardo Takamura.

Em algum momento da noite, durante uma sessão de fotografia da Via Láctea, o fotógrafo aponta a câmera para o céu, vê o centro galáctico aparecer no visor e percebe que a imagem está incompleta. Falta alguma coisa, e essa coisa não está no manual. É o instante em que a técnica termina e a composição começa. Aprender a atravessar esse instante é o que o workshop “A Luz Oculta”, dentro do Horto Florestal de Campos do Jordão, foi desenhado para provocar.

Numa noite recente, Daniel, fotógrafo participante, tentava encaixar a Via Láctea e a margem de um lago num único enquadramento. Estava usando uma lente de 16 milímetros, considerada bem aberta, equipamento adequado para imagens amplas. Mesmo assim, não conseguia incluir os dois elementos. Ricardo Takamura observou a situação e propôs uma alternativa que parece pequena no enunciado e muda toda a lógica do problema: uma panorâmica vertical, feita por costura de várias fotos empilhadas. A solução não vem da lente. Vem da composição.

16 milímetros

Workshops dedicados a iniciantes em astrofotografia gastam a maior parte do tempo em parâmetros: ISO, abertura, tempo de exposição, regra dos 500, regra de NPF, balanço de branco. São informações necessárias e mensuráveis, e por isso fáceis de transmitir. A questão é que, depois de assimiladas, elas deixam de ser o problema central. “Quando a gente faz um workshop tradicional, fala muito sobre técnica, sobre composição das estrelas, e a gente não consegue falar muito sobre composição”, explica Takamura. “Aí eu tive a ideia de a gente falar um pouco sobre composição.”

A frase parece banal, mas não é. Composição em astrofotografia significa unir, num único enquadramento, o que está acima (o céu inclinado, em movimento previsível) e o que está abaixo (o relevo, a vegetação, a água, as luzes humanas). Os dois domínios funcionam por lógicas diferentes. O céu obedece ao calendário e ao relógio. A paisagem obedece à geografia e ao acaso da hora. Compor é encontrar o ponto onde os dois se encontram e perceber, dentro desse encontro, o que está sendo dito.

Hemisfério sul, problema inteiro

A composição em astrofotografia no Brasil tem uma complicação que os manuais escritos no hemisfério norte costumam não tratar. “A gente está aqui no hemisfério sul, mais ou menos no meio do sul, ela está mais alta no céu e é um desafio tremendo compor com ela”, afirma Takamura. “Se você estiver no hemisfério norte, é mais fácil de compor porque ela está mais perto do chão.”

A diferença é geométrica. Quanto mais ao sul, mais o centro da Via Láctea aparece próximo ao zênite, ou seja, lá em cima. Quanto mais ao norte, mais ele se inclina para o horizonte. Para quem fotografa em São Paulo, em Campos do Jordão ou no Vale do Paraíba, o centro galáctico passa quase sobre a cabeça do fotógrafo. Isso é ótimo para observação astronômica e difícil para composição. Uma lente apontada para cima não vê o relevo. O relevo, por sua vez, é o que ancora o céu numa fotografia de paisagem.

A solução, conta Takamura, é trabalhar com a Via Láctea quando ela ainda está nascendo ou já se pondo, mais inclinada em relação ao horizonte. Em junho, isso significa fotografá-la nas primeiras horas da noite ou no fim da madrugada. Em outros meses, a janela muda. Por isso o calendário define o roteiro.

Foto: Danilo Lima

A panorâmica vertical

A técnica que viabiliza essa composição em montanhas brasileiras é a panorâmica em pé, ou panorâmica vertical. Em vez de fotografar a paisagem numa única imagem horizontal, o fotógrafo posiciona a câmera na vertical e captura uma sequência sobreposta, da terra ao céu. As fotos são depois unidas em software, formando uma imagem composta que cobre o ângulo necessário sem perder resolução.

Takamura usa o método como assinatura. “Aquela foto que eu fiz, que era do anúncio do workshop, era uma panorâmica”, conta. “Fiz a foto aqui com uma lente de 8 milímetros, depois subi um pouco, fiz outra, fiz outra. Fiz duas panorâmicas, uma com o lago com a Via Láctea e uma com a estrada com a Via Láctea para cima.”

A descrição é despretensiosa, mas o resultado é o que separa uma fotografia técnica de uma fotografia composta. O lago entra no enquadramento como espelho ou como horizonte. A estrada entra como linha de fuga. A Via Láctea, antes alta demais para caber, agora cabe, porque o frame deixou de ser definido pela lente e passou a ser definido pela intenção do fotógrafo.

O que fica de fora

Há um terceiro componente, que Takamura ensina menos em palavras e mais em campo. Boa parte das decisões compositivas é sobre o que se exclui do enquadramento, não sobre o que se inclui. Uma cidade visível ao longe pode comprometer uma foto pela luz emitida. Uma árvore mal posicionada quebra a leitura visual. Um lago sem reflexo pode ser apenas uma mancha escura no inferior do quadro.

Em uma das saídas do workshop, no mirante do Vale do Paraíba, com as luzes de Taubaté e Pindamonhangaba dominando o horizonte, o problema se inverteu. Não era mais como caber a Via Láctea, e sim como caber a Via Láctea sem que as luzes da cidade dominassem o céu. A resposta, conta Takamura, envolveu ajustar o ISO para um valor mais baixo do que o ideal para o centro galáctico, sacrificando um pouco do brilho das estrelas para preservar a leitura da cidade no enquadramento. “Não pode estourar embaixo, e não pode deixar que as estrelas se apaguem. Tem que encontrar um meio termo entre os dois.”

Compor, nesse caso, é negociar. Cada decisão técnica passa a servir a uma decisão visual maior.

Foto: Ricardo Takamura

A menina que tocou a lua

Composição como ato autoral aparece de forma mais clara quando o céu deixa de ser o assunto e passa a ser personagem. Takamura conta a história de uma fotografia que considera marcante na sua trajetória. “A foto da menina tocando a lua que eu tenho, foi aqui.” Ele posicionou a modelo num pequeno morro, desceu para baixo da elevação, fotografou de baixo para cima e esperou o momento em que a posição da lua coincidisse com o gesto da figura. Na imagem, o dedo da menina encosta na lua.

A foto não é um registro do céu. É uma cena com céu. O fotógrafo deixou de ser observador e passou a ser autor. É esse o ponto de virada que o workshop é desenhado para provocar, e é o que muda no aluno quando ele descobre, em campo, que a câmera é mídia, não fim. Esse deslocamento é, em parte, a continuação natural do que a primeira matéria desta série chamou de pedagogia do escuro.

Foto: Ricardo Takamura

O salto seguinte

Esta é a segunda de uma série de matérias sobre o workshop “A Luz Oculta” e sobre o que a fotografia noturna ensina a quem se dispõe a passar uma noite inteira fotografando o céu de Campos do Jordão. A próxima matéria se concentra no cenário, ou seja, no que faz do Horto Florestal um espaço fotográfico singular: araucárias centenárias formando silhuetas contra a Via Láctea, neblina que entra e sai do enquadramento, escuridão preservada pelo relevo da Mantiqueira, e fauna noturna que se ouve antes de se ver.

Para acompanhar os próximos textos da série, vale seguir o canal de Cultura Fotográfica e o calendário de atividades do Fotoclube Câmera e Luz.

Foto: Ricardo Takamura
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