Como construir seu primeiro fotolivro

Um fotógrafo de onze livros que recomeça do zero e um estreante que já planeja o segundo. A partir de um bate-papo no Câmera e Luz, um guia honesto sobre como fazer um fotolivro: o conjunto, o editor, o tempo e o mercado.

Num bate-papo no Câmera e Luz, em São José dos Campos, Ale Ruaro contou que estava prestes a publicar um livro e desistiu. Tinha assistido a uma palestra, voltado para o próprio trabalho com a cabeça em outro lugar e concluído que era outro o livro que precisava existir. O resultado foi “Vestígios”, o décimo primeiro título que ele publica. Para Antonello Veneri, o livro apresentado naquela noite, “Extremos Cotidianos”, era o primeiro de autoria inteiramente pessoal, e ele já pensa no segundo.

Para quem está decidindo se vale a pena transformar um conjunto de imagens em livro, esses dois números dizem mais do que parecem. Um fotógrafo experiente que recomeça do zero e um estreante que já planeja a sequência. O fotolivro deixou de ser um ponto de chegada e virou um modo de trabalhar.

O que cabe na mochila

“O livro é muito democrático”, disse Ruaro. “A gente pode pegar esse objeto, botar numa mochila, mostrar para as pessoas, se inspirando, vendo, revendo.” Compare com as alternativas. A exposição exige espaço, curadoria, logística, data de abertura e data de encerramento; é temporária por definição, termina, e o que fica é o registro. O arquivo digital não termina, mas também não permanece: depende de tela, de plataforma, de um feed que empurra a imagem para baixo no instante seguinte. O livro fica. Você o entrega na mão de alguém, e ele continua existindo depois que a conversa acaba.

Isso pesa especialmente para quem trabalha sem marcas de época. “Muitas partes do meu trabalho você pode olhar e imaginar que essa foto foi feita cem anos atrás. Não tenho um recorte de data no meu trabalho”, explicou Ruaro. O livro preserva essa ausência de tempo; o feed, que organiza tudo por data de publicação, trabalha contra ela.

O mercado que inundou o mundo

Ruaro usou essa expressão para descrever o que aconteceu com a edição fotográfica nas últimas duas décadas. O fotolivro inundou o mundo e quebrou grandes editoras que não souberam se adaptar. No espaço que elas deixaram, entraram editoras pequenas e especializadas, como a Void, cofundada pelo brasileiro João Linneu e sediada em Atenas, na Grécia.

Segundo Ruaro, há hoje festivais dedicados só ao fotolivro em vários países, da Argentina ao Chile, passando por Uruguai, Colômbia, Venezuela, Espanha e França. Para quem vai publicar, isso muda o cálculo: existe um circuito real para onde levar o trabalho e um repertório grande de referências para consultar antes de fechar o projeto. “Estar de olho nesse mercado é legal para ver o que está sendo publicado”, disse. Não para copiar, mas para calibrar o olhar e entender o que já foi feito, antes de gastar tempo e dinheiro reinventando o que existe.

Mande o conjunto, não a seleção

A orientação mais concreta de Ruaro foi também a mais contraintuitiva: não mande poucas fotos para um editor. Quem lê o trabalho precisa ver o conjunto inteiro, não a seleção que você já fez. A escolha das imagens é parte do ofício do editor, e entregar pronto tira dele justamente o que faz um livro funcionar. É um exercício de autocuradoria que você divide, não que resolve sozinho antes de mostrar.

Conte com tempo. O livro de Veneri levou seis meses, da ideia à impressão. O de Ruaro passou por dois editores que não conseguiram ler o trabalho antes de chegar à versão final. Isso não é acidente de percurso, é o percurso. Livro bom custa tempo e troca, e quem entra esperando um processo rápido tende a publicar um livro raso. Além de acompanhar editoras e festivais, Ruaro recomenda assinar newsletters especializadas em fotografia, as plataformas que reúnem o que está sendo publicado e discutido lá fora. O mercado é global, e as referências que importam quase nunca chegam pelo algoritmo: você precisa ir atrás.

Por onde dar o primeiro passo

Antes do livro, vem o corpo de trabalho. Quem ainda não tem um conjunto fechado pode começar submetendo imagens a curadoria externa, que é onde se aprende a enxergar a própria obra com a distância que o livro vai exigir. Vale também entender o livro como objeto antes de produzi-lo. A discussão sobre o suporte e a materialidade da imagem e sobre o desafio de curar o próprio trabalho prepara as duas decisões mais difíceis de qualquer fotolivro: o que entra e em que forma.

A conversa completa com Ale Ruaro e Antonello Veneri está disponível no site. Os livros de Ruaro e de Veneri podem ser adquiridos por DM no Instagram, no perfil do clube @fotoclubecameraeluz, a pronta entrega em São José dos Campos.

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