Dois homens conversam em um palco diante de uma plateia. Um deles fala ao microfone

Edição não é tratamento

Um editor devolveu a Ale Ruaro 297 fotos em ordem cronológica e chamou aquilo de edição. Não era. A partir do bate-papo no Câmera e Luz, um ensaio sobre a diferença entre editar e tratar, e sobre pensar a fotografia por conjuntos.

Ale Ruaro mandou trezentas fotografias para um editor em quem confiava. Semanas depois, recebeu de volta 297, organizadas em ordem cronológica. Foi só isso: o arquivo do fotógrafo, com três imagens descartadas, posto em fila pelo carimbo de data. “Isso não é uma edição”, disse Ruaro, sem rodeios, no bate-papo realizado na sede do Câmera e Luz, em São José dos Campos. Pagou o trabalho assim mesmo, para resolver a situação, e foi procurar outra pessoa.

O equívoco mais comum

Antes de tudo, é preciso desfazer uma confusão que Ruaro abordou de frente. No universo do fotolivro e da fotografia autoral, editar não é ajustar cores, corrigir exposição ou aplicar preset. Esse trabalho é o tratamento, outro estágio do processo, com outro nome. Editar é escolher: decidir quais fotos entram, quais ficam de fora e, sobretudo, em que ordem aparecem. É uma leitura do trabalho, que exige entender o que o fotógrafo está construindo, não apenas reconhecer as imagens tecnicamente bem feitas. “Tem gente que confunde isso”, disse Ruaro. “Edição é o que vai entrar no livro, o sequenciamento das fotos.” O editor que devolveu 297 fotos em sequência cronológica não leu o trabalho: devolveu um arquivo bem arrumado, o que não é a mesma coisa.

Três tentativas

Para o livro “Vestígios”, Ruaro passou por um processo longo e, por momentos, frustrante. A primeira pessoa convidada para editar tentou três vezes e desistiu, sem encontrar uma leitura que fizesse sentido para o autor. O segundo editor, alguém em quem ele confiava esteticamente, foi o que devolveu as 297 fotos em ordem cronológica. A terceira tentativa correu por outro caminho: Ruaro pediu a Alice, sua companheira, designer especializada em livros de arte. Ela nunca havia editado fotografias para um livro, mas fez uma edição que agrada ao fotógrafo e que vem recebendo reconhecimento de críticos. O que fez a diferença foi simples de dizer e difícil de executar: ela leu o trabalho.

Os dípticos de Antonello

No livro de Antonello Veneri, Ëxtremos Cotidianos”, a edição foi construída de outra forma, com o mesmo princípio: a foto isolada raramente conta tudo, o que conta é a relação entre as imagens. Segundo ele, o livro se estrutura em dípticos, duplas de fotos que se completam ou se tensionam. Uma yalorixá do Candomblé, com o arco e a flecha de Oxóssi, ao lado de um tanque de guerra. Um grito de alegria numa quadra de samba ao lado de um grito de outra natureza, em outro contexto. “Os opostos se afastam, os extremos se aproximam”, disse Veneri, repetindo a ideia que leva a outros encontros.

A frase resume o método. Em vez de fotos isoladas, conjuntos narrativos; em vez de escolher a melhor imagem, construir o diálogo entre duas. “Cada fotografia é um capítulo de um livro”, explicou. “Temos que pensar não por foto, mas por fotos, por conjuntos narrativos, sequências.” O Lightroom apareceu como ferramenta útil justamente para isso: não para tratar imagens, mas para construir edições, testar sequências, ver o que conversa e o que destoa. A pergunta deixa de ser “esta foto está boa?” e passa a ser “esta foto, ao lado daquela, conta o quê?”.

Pensar em conjuntos

O raciocínio vale para além do fotolivro. Qualquer fotógrafo que queira construir um corpo de trabalho consistente precisa aprender a pensar em conjuntos. O que esta foto faz junto às outras? Que história se constrói ao longo de dez imagens, de cem, de mil? É um exercício diferente de escolher “a melhor foto do dia”: exige mais distância, mais paciência e, com frequência, a disposição de descartar imagens tecnicamente perfeitas que simplesmente não cabem na narrativa em construção. Veneri deu nome ao princípio: fotografar menos e pensar muito mais. Com o digital, disse, as pessoas fotografam compulsivamente e pensam pouco. O tempo sentado diante das próprias imagens, escolhendo, descartando, sequenciando, é onde a fotografia autoral se decide, o mesmo gesto de renúncia que o ensaio O coração da imagem trata como ato de seleção.

Esse trabalho de edição é, no fundo, uma forma de autocuradoria, o fotógrafo diante do próprio arquivo, tema que o clube já explorou no ensaio sobre o fotógrafo diante do espelho. Os livros “Vestígios”, de Ale Ruaro, e “Extremos Cotidianos”, de Antonello Veneri, seguem disponíveis para compra com o clube, pelo direct do Instagram @fotoclubecameraeluz.

A conversa completa entre os dois está registrada na cobertura do encontro, e o princípio de Veneri ganha desenvolvimento próprio no ensaio “Fotografar menos, pensar mais”.

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