Foto: Ralf Corrá

Fotografar menos, pensar mais: a lição de Ale Ruaro e Antonello Veneri

Num meio que premia o volume, Ale Ruaro e Antonello Veneri defendem o contrário: a foto que vale já estava decidida antes do obturador disparar. A conversa no Câmera e Luz foi sobre fotografar com intenção, não na base da metralhadora.

Num meio que valoriza volume, dois fotógrafos com décadas de estrada defendem o oposto: a imagem que vale é aquela que já estava pronta antes do obturador disparar. Fotografar com intenção, e não na base da tentativa, foi o fio da conversa de Ale Ruaro e Antonello Veneri no Câmera e Luz.

Veneri contou uma cena da viagem até São José dos Campos para o encontro: estava no carro, em silêncio, pensando nas próprias fotografias. Não editava, não postava, não comparava câmeras. Apenas pensava. Para quem acompanha as redes de fotografia, o comportamento soa quase radical.

“Fotografo muito, mas fotografo muito pouco”, disse Ale Ruaro. “Às vezes faço uma foto no dia. Às vezes três.” Ruaro tem 31 anos de fotografia, 11 livros publicados e um trabalho reconhecido fora do país. E, ainda assim, ou por isso mesmo, raramente levanta a câmera sem saber o que quer dela.

Metralhadora x intenção

Com o digital, ficou fácil disparar para todos os lados e torcer para que alguma imagem preste. Veneri tem um nome para isso: metralhadora. “Fotografamos compulsivamente e pensamos muito pouco”, afirmou. “Temos milhares de fotos guardadas em HDs que não vamos fazer nada.” O problema não é o volume em si, mas o que ele esconde: a falta de um olhar formado.

Para Ruaro, o fotógrafo precisa primeiro aprender a ver, e ver de verdade, não apenas registrar. “Quando eu olho pra uma cena, eu já sei o que eu quero dela. É muito automático. Eu não fico pensando em configuração. Isso tem que ser o mínimo.” O que vem antes do clique é o olhar treinado, a escolha já feita na cabeça. A câmera confirma, não descobre. É uma inversão: em vez de fotografar muito para ver o que sai, fotografa-se pouco, porque já se sabe o que se procura. É a mesma lógica do ensaio sobre o que separa o clique reativo do pensado.

A armadilha da informação

Os dois tocaram em outro ponto: a abundância de informação não está ajudando, está atrapalhando. “Quando não tinha informação, você procurava o que precisava”, disse Ruaro. “Hoje você consome um monte de coisa que não quer. E isso interfere.” Tutoriais, presets, reels de técnica e comparativos de equipamento chegam juntos, sem hierarquia. O resultado é um fotógrafo que sabe muita coisa, mas não sabe quem é.

A saída, segundo eles, não é ignorar tudo, e sim canalizar: decidir por onde ir, perguntar o que serve ao próprio trabalho e o que está desviando. Essa pergunta importa mais que qualquer configuração de câmera.

Sentar e olhar

Ficou do encontro uma imagem pouco glamourosa: o fotógrafo passa mais tempo sentado, olhando para as próprias fotos, do que na rua fazendo fotos. Não rende story, mas é onde o trabalho acontece. Veneri e Ruaro relataram a mesma rotina: acordam e vão ver as próprias imagens, não como tarefa, mas como prática diária de entender o que está sendo construído, quais fotos dialogam e quais não servem mais.

O objetivo, como Veneri colocou, não é isolar a foto perfeita, mas construir conjuntos que comunicam. “Temos que pensar não por foto, mas por fotos, por conjuntos narrativos, sequências”, disse. “Cada fotografia é um capítulo de um livro.” Contar uma história inteira numa imagem só é raríssimo, e mesmo os grandes o fazem poucas vezes na vida.

No fim, o que os dois propõem é menos uma técnica e mais uma troca de ritmo: desacelerar o clique para acelerar o pensamento. A conversa, promovida pelo Câmera e Luz, aconteceu em abril, no Parque Vicentina Aranha, e pode ser revisitada na cobertura completa do encontro.

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