Cinco litros de gasolina. CDs, negativos, cromos, DVDs e HDs. Um assistente como única testemunha. Sem câmera, sem registro, sem plateia. Só o fogo. Foi assim que Ale Ruaro encerrou a primeira fase da carreira e abriu a segunda.
“Não foi uma coisa pública. Era tudo muito ruim, eu não gostava”, contou no bate-papo do Câmera e Luz. “Eu queimei e não gravei. A intenção não era essa.” Não era performance, era catarse, a forma que encontrou de recomeçar sem carregar o peso do que havia construído para agradar aos outros.
A veia que não cabia
Por anos, Ruaro foi fotógrafo publicitário. Bom o suficiente para trabalhar, frustrado o suficiente para saber que não era aquilo que queria. “Eu não conseguia colocar minha veia no trabalho. Eu tinha que estar sempre executando para alguém.” A frustração cresceu até ficar insustentável, mas o estopim veio de fora, numa leitura de portfólio que ele nem deveria estar fazendo.
O penetra da pós-graduação
Anos antes da queima, Ruaro soube que um nome importante da fotografia daria um módulo numa pós-graduação. Ele não era aluno: entrou como penetra, levado por um assistente que cursava o programa, e participou dos dois dias. Na hora de assinar a lista de presença, seu nome não estava lá.
Ao explicar a situação, ouviu que tinha sido a pessoa mais interessada da sala, e um convite: uma leitura de portfólio gratuita, quando quisesse. Na leitura, a crítica foi dura. Ruaro resume o efeito: “No início dá vontade de chorar”. Mas o recado, segundo ele, foi libertador: não precisava provar nada a ninguém, nem que sabia fotografar; precisava construir a própria fotografia. Ele saiu dali, foi à Bienal, chorou bastante e decidiu: ou se tornava um fotógrafo que fizesse sentido para si, ou largaria a fotografia. Não largou. Refez tudo.
O que ficou depois do fogo
A partir da queima, Ruaro foi abandonando aos poucos o trabalho comercial: estúdio, equipamento e clientes. Em paralelo, construiu um corpo de trabalho pessoal que, com o tempo, ganhou assinatura reconhecível. “Você pode olhar uma foto e dizer: essa foto é do Ale. Isso demorou muito tempo para eu encontrar na minha vida.” É a forma extrema de um gesto que todo autor enfrenta, o de descartar para encontrar uma voz.
O caminho levou a 11 livros. O mais recente, “Vestígios”, lançado no ano passado e apresentado neste bate-papo, reúne 16 anos de imagens, de 2009 a 2025, e não tenta explicar nada. “Esse livro é para quem gosta de ler fotografia. Para parar em cima de cada foto, olhar, fazer uma leitura, tentar decifrar”, disse. (Não por acaso, o recorte começa em 2009, o ano da fogueira.)
A história de Ruaro não é roteiro de autoajuda. É um relato honesto sobre o custo de encontrar a própria linguagem e sobre o quanto, às vezes, é preciso destruir para construir com sentido. Fotoclubes que atravessaram décadas guardam histórias parecidas, de fotógrafos que mudaram de rota e recomeçaram, algumas reunidas em Duas Décadas de Luz.
A conversa completa com Ale Ruaro e Antonello Veneri pode ser revisitada na cobertura do encontro.


