Dois homens em um painel de discussão; um fala ao microfone enquanto o outro escuta, diante de uma plateia
Foto: Ralf Corrá

Impara l’arte e mettila da parte: dominar a técnica para subvertê-la

Ale Ruaro estudou o Sistema de Zonas de Ansel Adams a fundo e depois escolheu não usá-lo. É o que diz um ditado italiano que Antonello Veneri trouxe ao Câmera e Luz: aprenda a arte e ponha-a de lado. A técnica é a estrada, não o destino.

Ansel Adams, com Fred Archer, sistematizou uma forma de ler a luz em preto e branco que poucos fotógrafos dominam de verdade. É o Sistema de Zonas (Zone System): uma escala de onze zonas, do preto puro (zona 0) ao branco puro (zona X), cada uma com comportamento específico. Ale Ruaro estudou isso a fundo: leu três livros de Adams, fez uma oficina de uma semana, aprendeu a ler a luz como Adams lia. Depois, deliberadamente, escolheu não usar.

Na Itália existe um ditado

Os italianos levam a sério a frase “impara l’arte e mettila da parte”, que em tradução livre quer dizer: aprenda a arte e ponha-a de lado. Antonello Veneri trouxe o ditado durante o bate-papo no Câmera e Luz, e ele resume o que tanto ele quanto Ruaro defendem sobre a relação entre técnica e linguagem. A técnica não é o destino, é a estrada: é preciso percorrê-la para depois saber onde desviar.

“Para você ter uma linguagem, ou para você escorregar nessa linguagem, você tem que dominar”, disse Ruaro. O preto e branco que ele faz é, pela teoria clássica, tecnicamente incorreto: não tem a escala de cinzas de Adams, tem contraste excessivo, sombras fechadas, altas luzes estouradas. E é exatamente isso que o torna reconhecível. “Sou bom nisso para não usar isso”, resumiu.

Uma 70-200 num workshop de retrato

Veneri tem uma história que ilustra o ponto. Num workshop de retrato na Itália, em sala pequena e distância de trabalho curta, havia um fotógrafo orgulhoso de sua lente 70-200, uma teleobjetiva comprida, mais usada para esportes e vida selvagem do que para um retrato íntimo. O que chamou a atenção do assistente do professor, porém, não foi equipamento nenhum, e sim o fato de Veneri ser o único na sala que não estava pensando em equipamento.

No segundo dia, o assistente se virou para ele e disse: “Você está fazendo o que aqui? Vai embora.” Veneri achou que era crítica. Depois entendeu que era elogio: ele estava ali para aprender a ver, não para mostrar o que tinha. Desde então, os dois viraram amigos. O ponto não é que equipamento caro seja inútil, mas que o equipamento que não serve ao trabalho em construção não serve a nada.

O instrumento certo para o trabalho certo

Ruaro desenvolve o raciocínio com precisão: assim como o escultor escolhe o cinzel e o pintor escolhe o pincel e a tela antes de começar, o fotógrafo precisa escolher o equipamento em função do que quer fazer, não da marca, do preço ou do que o colega usa. “O equipamento é um instrumento fotográfico quando o cara tem um trabalho pessoal”, afirmou.

No caso dele, os trabalhos em cor foram concebidos em cor antes de chegar ao local; o preto e branco denso exigiu uma técnica específica, aprendida para depois ser subvertida. Cada escolha tem uma razão que não é técnica, é estética. Cartier-Bresson dizia que a câmera é uma extensão do olho; Ruaro e Veneri dizem o mesmo com outras palavras: a câmera precisa ser invisível para o fotógrafo, para que o olhar trabalhe sem interferência.

Na prática, é desse princípio, dominar para depois ter liberdade de escolher, que partem as atividades recorrentes do clube, como o workshop que desmistificou o flash speedlite com Jésus Lopes.

A conversa completa com Ale Ruaro e Antonello Veneri pode ser revisitada na cobertura do encontro.

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