Antonello Veneri cresceu numa cidade italiana de montanha, pequena e arrumada. “Extremamente entediante”, define sem hesitar. O tipo de lugar onde nada parece urgente, as paredes são neutras e os gestos, comedidos. Depois, veio para o Brasil.
O que Jorge Amado não preparou
Antes de chegar, Veneri lia Jorge Amado para aprender português. A Bahia que imaginava era a dos romances: exuberante, um tanto exótica, quase literária demais para ser real. A realidade foi diferente, e foi mais. “Eu percebi que tem surrealismo”, disse no bate-papo do Câmera e Luz. “É incrível.”
O que encontrou não era exotismo, palavra que recusa com cuidado, mas extremos que não se opõem e sim se encostam: o sagrado e o profano, a alegria e a tragédia, a festa e a violência. “Os opostos se afastam. Os extremos se aproximam.” Não por acaso, o livro que apresentou no encontro se chama “Extremos Cotidianos”. Veneri vive no Nordeste, sobretudo em Salvador, há quase duas décadas, e diz não ter perdido o encantamento.
A abelha e a cor
Há uma imagem que ele usa para descrever sua relação com a cor: a de uma abelha que sente o chamado das flores e não resiste. “Sou chamado pela cor como uma abelha.” Na prática, isso significa que costuma se aproximar demais. No fotojornalismo, era problema: a fotografia jornalística pede uma distância certa, o ponto de vista que conta a história sem sufocar o contexto, e os editores reclamavam que ele enchia o quadro de cor.
Com o tempo, a característica deixou de ser defeito e virou assinatura. As fotos do livro têm esse perto que sufoca um pouco, de propósito. Veneri, que colabora com a agência France-Presse e já publicou em veículos como a National Geographic e o The Guardian, construiu o olhar contra a régua do próprio ofício.
Um grito de existência
Numa das últimas falas do encontro, ele resumiu o projeto estético que vem construindo há quase vinte anos no Brasil. “Em muitos lugares, as cores servem para vender. A publicidade é muita cor. Em outros lugares, a cor serve para viver. É um grito de existência.”
A distinção é simples e potente. A cor da periferia não é decoração, é afirmação. A parede amarela, a blusa vermelha, o estandarte da festa religiosa: tudo isso diz, antes de qualquer outra coisa, que quem está ali existe.
Fotografar isso, segundo Veneri, exige preservar o encantamento de criança. Ele conta que, quando pequeno, enquanto os outros iam à praia, ficava com o tio que havia combatido na Segunda Guerra, ouvindo histórias. “Eu entendo hoje por que sou fotógrafo. Gosto de coletar e ouvir histórias.” O encantamento, no caso dele, não é ingenuidade, mas um estado de atenção, e o único método que faz sentido para o seu trabalho autoral.
Quem quiser entender como o olhar fotográfico dialoga com outras linguagens encontra a mesma fronteira entre ver e sentir em outra atividade do clube, em que cineasta e cientistas debateram imagem e crise climática.
A conversa completa com Ale Ruaro e Antonello Veneri pode ser revisitada na cobertura do encontro.


