Foto: Adilson Martins

A pedagogia do escuro

Ricardo Takamura largou o projetor e levou o aprendizado para o escuro do Parque Estadual de Campos do Jordão. Um relato sobre fotografia noturna, sobre o que só se aprende em campo e sobre a disciplina de manter os olhos no escuro até a paisagem aparecer.

Nas instalações da Cabanha Treze Listras, dentro do Parque Estadual de Campos do Jordão, a mais de 1.600 metros de altitude, o fotógrafo Ricardo Takamura abre o sábado do workshop “A Luz Oculta” sem ligar o projetor. Não levou: deixou de carregar projetor há algum tempo. A transição foi gradual e atende a uma observação prática sobre o público que ele forma há anos. “Comecei a perceber que muitas pessoas voltavam várias vezes nos workshops, e que eu precisava gerar conteúdos novos tanto para as pessoas que estavam chegando quanto para as que estavam voltando, e o projetor me amarrava muito nisso”, conta. “Pensando na experiência como um todo, sem a necessidade de ter um projetor e uma sala de aula, podemos planejar encontros em lugares especiais como esse.”

Sentado em torno da mesa, ele propõe ao grupo algo simples: conversar. Sobre composição, sobre planejamento, sobre o que a Via Láctea fará naquela noite. Não há tela, não há roteiro impresso, não há tutorial. Há o espaço aberto para o Horto Florestal, as araucárias centenárias a poucos metros, e fotógrafos que vieram do Vale do Paraíba, da capital paulista e de outras regiões para aprender a fotografar o céu de altitude. A primeira virada do método se anuncia ali, na mesa. A segunda acontece quando o sol se põe.

Mesa de conversa

Takamura tem trajetória reconhecida em salões nacionais, com presença recorrente em premiações como o Salão Internacional de Araraquara, a Bienal Brasileira de Preto e Branco e o Salão de Jaú. É também professor de oficinas de light painting, técnica de pintar com luz no escuro, e isso talvez explique por que, para ele, qualquer fonte de iluminação artificial em campo é, antes de tudo, um problema.

Sem projetor, o tom é de conversa entre fotógrafos. Ele desenha no ar a posição da Via Láctea conforme o mês. Lembra que junho, embora seja o mês mais escuro do ano, é também o mais difícil para compor: o centro galáctico nasce quando o sol se põe e se põe quando o sol nasce. Mostra, no celular, o aplicativo que usa para planejamento. Comenta o equipamento dos participantes, sugere combinações de lente e altura de tripé, prevê o que vai dar certo no parque, à noite, e o que vai exigir improviso.

A escolha pelo formato de conversa é funcional. “Quando alguém fica sentado por muito tempo ouvindo, a tendência é entrar em modo de aula, isso quando não entra em modo de soneca”, explica. “Quando a pessoa está em campo, andando, observando e tomando decisões, ela participa muito mais. As conversas ficaram mais naturais. Muitas vezes uma dúvida aparece porque a pessoa está olhando para uma composição naquele momento. A pergunta nasce da experiência, e isso costuma gerar uma troca muito mais rica.”

A leitura é compartilhada por quem está do outro lado da mesa. Marco Thommazo, fotógrafo que participou da experiência, descreve o efeito do formato quando o aluno já carrega bagagem técnica. “Para quem já tem alguma experiência e já participou de alguns workshops, a troca de informações observando as fotos e trocando ideias de como foram realizadas é, para mim particularmente, muito mais produtivo e interessante”, afirma. “A forma didática usada foi mais informal e menos repetitiva, mesmo assim acompanho a repetição, pois sempre tem algum detalhe que é bom relembrar.” Ele cita aprendizados surgidos nos momentos de troca, como técnicas para encontrar o foco no infinito e o uso de aplicativos para empilhamento de imagens, startrail e timelapse.

Campos do Jordão depois do portão

Campos do Jordão é, em qualquer estação, uma cidade turística. Hotéis cheios, ruas movimentadas, parque florestal disputado por famílias, ciclistas e visitantes de São Paulo, do Vale do Paraíba e do Sul de Minas. Esse fluxo é parte da identidade da cidade e do que a torna conhecida. Mas é também o oposto exato do que a fotografia noturna pede.

O workshop resolve a tensão na origem. As atividades dentro do parque acontecem em horários e pontos fechados ao público em geral, mediante autorização específica concedida ao grupo. Os deslocamentos para a Trilha da Celestina e para os mirantes da Estrada das Pedrinhas acontecem em veículos contratados, fora dos circuitos turísticos. O resultado, na prática, é que cada ponto da experiência fica ocupado apenas pelos participantes.

Thommazo descreve esse arranjo como diferencial central. “Achar e fotografar a Via Láctea num lugar onde à noite só estava o nosso grupo foi muito impactante”, diz. “Foi uma coisa muito exclusiva, um diferencial.” Para a fotografia noturna, essa exclusividade tem efeitos que se somam. A escuridão se mantém estável, sem lanternas de outros visitantes interrompendo a adaptação visual do grupo. O silêncio permite ouvir o ambiente, e ouvir o ambiente é parte do método. Os enquadramentos não disputam espaço com pessoas atravessando a cena. Tempos de exposição de quinze, vinte, trinta segundos podem ser executados sem interferência. E talvez o ganho mais sutil seja o de presença: o coletivo se concentra na paisagem sem o ruído de fundo do destino turístico que existe a poucos quilômetros morro abaixo.

A combinação de cidade conhecida e parque vazio é o que diferencia a proposta de saídas em destinos remotos. O participante chega em poucas horas de carro a partir do Vale do Paraíba, hospeda-se com conforto, faz refeições nos restaurantes do Horto durante o dia e, à noite, tem acesso a um cenário que, nesse horário, está fechado a qualquer outra visitação.

Foto: Adilson Martins

O que aparece quando o celular apaga

Quando a noite chega, todos sobem em veículos 4×4 até um trecho da Trilha da Celestina, ponto alto da Estrada das Pedrinhas, trecho do Caminho da Fé que desce de Campos do Jordão rumo a Guaratinguetá e Aparecida. A Via Láctea está alta. As lanternas estão acesas. E Takamura faz o pedido que organiza tudo o que vem em seguida: a lanterna cega o olho, a tela do celular cega; para enxergar a paisagem, é preciso desligar tudo, parar, olhar.

A frase parece evidente. Não é. O olho humano leva cerca de vinte minutos no escuro para que os bastonetes da retina, células responsáveis pela visão em baixa luz, assumam o trabalho. Cada vez que alguém consulta o celular, o relógio recomeça do zero. Cada vez que uma lanterna pisca, todo o coletivo perde o que tinha começado a perceber. Aprender a fotografar de noite passa, então, por uma disciplina física: manter os olhos no escuro tempo suficiente para que a paisagem apareça.

É também por isso que o slide se tornou dispensável. “Na fotografia noturna, principalmente, muita coisa só faz sentido quando você está no lugar”, diz Takamura. “O frio, a escuridão, a dúvida sobre onde montar o tripé, a percepção do céu mudando. Aos poucos fui reduzindo as apresentações e deixando a prática ocupar mais espaço. Hoje ainda existem momentos de conversa e planejamento, mas eles acontecem como preparação para a experiência, não como o centro dela.”

O silêncio do parque vazio reorganiza a atenção de quem fotografa. Marco descreve esse estado em palavras quase contemplativas: “O silêncio predominante durante as atividades noturnas é uma experiência à parte, permite maior concentração e em alguns momentos até meditação visual durante as capturas de timelapse.” A escuta, na fotografia noturna, faz parte do enquadramento. Sem ela, o fotógrafo deixa de perceber a neblina chegando, o vento mudando de intensidade ou a fauna se movimentando ao fundo.

Araucárias como referência

O Parque Estadual de Campos do Jordão é um dos pontos mais escuros da Serra da Mantiqueira no estado de São Paulo. As luzes do Vale do Paraíba ficam do outro lado da serra, contidas pelo relevo. As araucárias, que podem ultrapassar trinta metros, formam silhuetas únicas contra o céu, com copas em forma de candelabro que parecem desenhadas para a composição.

Quando o grupo se acostuma ao escuro, esse cenário passa de pano de fundo a protagonista. O fotógrafo deixa de tentar isolar a Via Láctea no enquadramento e começa a compor com a paisagem, o relevo, a vegetação, a neblina que sobe e desce ao longo da noite. A virada técnica é também uma virada de olhar: do céu como assunto único para o céu como elemento da composição.

A ordem da noite parece improvisada, mas obedece a uma lógica que Takamura ajusta a cada workshop. “Existe um planejamento, mas ele nunca é rígido”, explica. “Tem coisas que influenciam muito: posição da Via Láctea, lua, clima, neblina, vento e até o ritmo da turma. Mas geralmente quem dita a ordem das coisas é a posição da Via Láctea em relação à data. Cada local é escolhido cuidadosamente de acordo com as datas.” A partir daí, há uma curva pedagógica desenhada mais devagar. “Normalmente começo por lugares mais simples, onde a pessoa consegue se adaptar ao escuro e entender o ambiente. Depois vamos avançando para composições mais complexas. Sem perceber, a pessoa vai ganhando confiança ao longo da noite.”

A confiança que se constrói não é só técnica. É também a de enfrentar o próprio costume. Marco descreve uma barreira que precisou superar. “A maior dificuldade técnica foi superar o meu limite de ISO impregnado durante anos, onde ISO alto representava muito ruído. Só na prática da experimentação fui superando meus limites e hoje já não tenho mais receio.” A composição, por sua vez, ainda lhe parece desafio aberto: “A dificuldade compositiva noturna é sempre devido à surpresa do lugar; reconhecer o cenário com rapidez e enxergar os pontos de referência para inclusão na composição não é muito amigável. Uma visita prévia ao cenário facilita.”

É aí que o método aparece em pleno funcionamento. Takamura conduz a transição em campo, frame a frame. Sugere a um participante refazer um enquadramento porque o lago não cabia com o centro galáctico. Mostra a outro como uma sequência de fotografias verticais, depois unidas em panorâmica, resolve a limitação da lente. Aponta para um lado: olha a neblina ali, olha como a luz do horizonte está se comportando agora. O ensino acontece em voz baixa, na escuridão, entre pessoas que querem aprender.

O que não cabe num slide

Pergunto a Takamura, depois, o que ele não conseguia ensinar enquanto a sala de aula era o centro do trabalho. A resposta vem em duas palavras: “perceber o lugar”. Em seguida, desdobra. “Não dá para explicar em uma apresentação o momento em que alguém olha para uma paisagem no escuro e entende a luz do ambiente em que estamos fotografando. Também não dá para simular a sensação de caminhar em silêncio, perceber uma neblina entrando, esperar a lua mudar a luz da cena ou descobrir uma composição que não estava planejada.”

A frase resume a pedagogia inteira. Slides explicam o que já foi visto; a escuridão entrega o que ainda precisa ser visto. E entre uma coisa e outra está o que separa o fotógrafo que opera a câmera daquele que decide o que ela vai dizer. Marco descreve esse deslocamento ao registrar, no segundo mirante, um momento inusitado. “Ventava muito e descemos no patamar inferior. Me deparei com um vento mais calmo e um show de nuvens em cima do Vale do Paraíba. Foi muito impactante aquela visão clara e incomum gigantesca. Além de fotos únicas, realizei muitas que usei para timelapse e startrail.” Nenhum slide poderia ter previsto aquele patamar inferior. A decisão nasceu do encontro entre o lugar, o vento, o céu e o tempo disponível.

Foto: Ricardo Takamura

A finalização

A noite termina por volta das duas da manhã. No domingo de manhã, o grupo se reúne de novo, agora para revisar e editar as imagens. É a parte do workshop em que a colheita da noite vira repertório consciente, em que cada participante revê as próprias decisões e descobre o que funcionou e o que não funcionou.

Para a maioria, o destino seguinte é a descida da serra de volta para São José dos Campos, Taubaté, Caçapava, Pindamonhangaba, a cidade de origem. O que volta com eles não é apenas uma pasta de arquivos RAW. É um repertório novo de percepção, uma forma diferente de planejar a próxima saída fotográfica e uma suspeita razoável de que parte do que se ensina sobre fotografia talvez ensine pouco se for ensinada em sala de aula.

Marco resume o efeito da experiência, em que a fotografia aparece misturada à floresta, à comida, ao som e ao frio. “O Horto foi uma grande surpresa, não o conhecia. A experiência, seja ela meditativa, gastronômica, aromática, sonora e visual, foi muito rica.” Ele cita os cheiros da floresta, os pássaros, o lobo-guará e as corujas ouvidos durante a noite, a vista do Vale do Paraíba a partir dos mirantes, o vento forte, o frio, o chocolate quente servido na madrugada. E, no centro de tudo, uma observação que diz mais sobre o ofício do que parece: “A foto noturna é incomparável, um trabalho individual que, mesmo estando de certa forma perto uns dos outros, nossas visões são totalmente diferenciadas.”

A pedagogia do escuro não substitui o conhecimento técnico. Ela faz outra coisa: cria as condições para que o conhecimento técnico encontre, enfim, um olho preparado para usá-lo. Trata-se, no fundo, de um deslocamento. O rigor sai do slide e entra no campo. A aula sai da sala e entra na paisagem. E o fotógrafo, ao voltar para casa, leva consigo a única coisa que nenhum equipamento entrega: a experiência de ter passado uma noite inteira aprendendo a ver.

Foto: Danilo Lima

O salto seguinte

Esta é a primeira de uma série de matérias dedicadas ao workshop “A Luz Oculta”, ao método de Ricardo Takamura e ao que a fotografia noturna ensina a quem se dispõe a passar uma noite inteira no escuro de Campos do Jordão. O próximo texto se debruça sobre o momento em que o fotógrafo deixa de tirar foto da Via Láctea e passa a fazer fotografia com a Via Láctea, o ponto de virada que distingue o operador da câmera do autor da imagem, conduzido com decisões de altura de tripé, escolha de lente, panorâmica vertical e leitura da paisagem. As próximas matérias da série saem no canal de Cultura Fotográfica.

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