As duas primeiras matérias desta série deixaram uma lista incômoda. Nicéphore Niépce fixou a primeira imagem por volta de 1826. Louis Daguerre teve seu processo anunciado em 1839. William Henry Fox Talbot fotografava na Inglaterra desde 1835. Hippolyte Bayard obtinha positivos sobre papel também em 1839. E Hercule Florence já usava a palavra photographie no interior paulista em 1833. Cinco pessoas, três países, pouco mais de uma década. A pergunta que fica não é quem chegou primeiro, e sim por que tanta gente chegou quase junto.
Cento e quarenta e oito invenções, mais de um autor cada
A resposta tem história própria. Em 1922, os pesquisadores William Ogburn e Dorothy Thomas publicaram, na revista Political Science Quarterly, uma lista de 148 invenções e descobertas científicas feitas de forma independente por duas ou mais pessoas, mais ou menos ao mesmo tempo. O cálculo, o telefone e a teoria da evolução por seleção natural estavam nela. A fotografia também, registrada como invenção independente de Daguerre e Niépce, na França, e de Talbot, na Inglaterra, ambos em 1839. Décadas depois, o sociólogo Robert K. Merton radicalizou a leitura. Para ele, o padrão das descobertas múltiplas e independentes na ciência é, em princípio, o padrão dominante, e não um caso secundário. O inventor solitário, nessa chave, passa a ser a exceção que precisa de explicação, não a regra.
Convém não confundir isso com coincidência. Quando várias pessoas resolvem o mesmo problema quase ao mesmo tempo, o que se revela é que o problema estava maduro, e que os elementos para resolvê-lo já circulavam.
O caso que prova a regra
A fotografia é um exemplo quase didático dessa tese. Três ingredientes estavam disponíveis para quem soubesse combiná-los. A câmara escura, um dispositivo óptico que projeta imagens, era conhecida havia séculos e usada por pintores. A sensibilidade de certos sais de prata à luz vinha sendo estudada por químicos desde o século XVIII. E havia um desejo cultural crescente de registrar o mundo visível com fidelidade, num tempo de expansão científica e de viagens de exploração.
Reunidos esses elementos, o passo seguinte estava, por assim dizer, ao alcance de várias mãos. Não por acaso, quem deu nome ao campo em inglês foi um quarto personagem, o astrônomo John Herschel, que ajudou a firmar o termo photography e parte do vocabulário químico que se tornou padrão. A técnica não brotou de uma cabeça iluminada. Ela foi convergindo, em versões diferentes, sobre o mesmo ponto.
Portas, não relâmpagos
Daí a imagem que dá título a este texto. A invenção costuma ser contada como um relâmpago, um instante de genialidade isolada. O caso da fotografia sugere o contrário: as grandes invenções se parecem mais com portas que se abrem no conhecimento acumulado, e que várias pessoas atravessam quase ao mesmo tempo porque chegaram todas ao mesmo corredor. O inventor, nessa leitura, não cria a partir do nada. Ele reconhece e formaliza o que o estado do conhecimento já tornou possível.
Isso não diminui o mérito de ninguém. Atravessar a porta primeiro, e saber o que se atravessou, exige competência e trabalho. Mas desloca o foco do herói solitário para as condições que tornam a descoberta provável. É uma forma mais sóbria, e mais honesta, de contar a história da técnica.
Depois da porta aberta
Se a fotografia não teve um pai único, também não teve um ponto final. Aberta a porta em 1839, o que se entende por fotografia nunca parou de se mover. O historiador Boris Kossoy propõe que a fotografia não é um espelho neutro do mundo, e sim uma construção, o que ele chama de segunda realidade, resultado de escolhas de quem fotografa. E o crítico Rubens Fernandes Junior, ao formular a ideia de fotografia expandida, mostra como a própria definição do meio seguiu se alargando, da imagem em papel ao objeto, à instalação e à experimentação na arte contemporânea.
Em outras palavras, a mesma lógica que explica a origem múltipla da fotografia continua valendo depois dela. O conhecimento abre uma porta, muitos a atravessam, e do outro lado há sempre novas portas. Para um clube que trata a fotografia como disciplina, e não como passatempo, essa é a lição mais útil da efeméride: a autoria, na fotografia, raramente é invenção do zero. É escolha, recorte e olhar sobre um repertório que se constrói em conjunto, geração após geração.


