Ver, Luana Martinez

Autorretrato em preto e branco vence o Sombras e Silêncio

Luana Martinez venceu o concurso interno Sombras e Silêncio com um autorretrato em preto e branco em que quase todo o quadro é escuro. A fotografia se chama “Ver”, e a autora aparece olhando para fora do enquadramento, sem posar para quem a observa.

Luana Martinez venceu o concurso interno “Sombras e Silêncio”, do Fotoclube Câmera e Luz, com a fotografia “Ver”. É um autorretrato em preto e branco feito sob fonte de luz única, em que o rosto ocupa uma faixa estreita do quadro e todo o restante permanece escuro.

O concurso encerrou as inscrições em 31 de julho de 2026 e reuniu fotografias, uma por associado, conforme o regulamento publicado no site do clube. O tema pedia “uma fotografia que se escuta”, com “luz contida, sombra como elemento protagonista e vazio como composição”.

Ver, Luana Martinez

Um rosto e o resto

A luz chega alta e do lado para onde a autora olha. Ela desenha uma sequência estreita: testa, arco da sobrancelha, dorso do nariz, maçã do rosto, lábio superior, queixo, uma faixa do pescoço e a linha de pele que a gola em V da blusa preta deixa exposta. Depois disso, nada. O cabelo se dissolve no fundo. A roupa se dissolve no fundo. O terço direito do quadro tem luminância média zero em toda a sua extensão.

Na prática de estúdio, esse arranjo tem nome. Chama-se luz baixa, ou low key, e consiste em iluminar uma fração pequena da cena com uma fonte direcional, sem preenchimento e sem uma segunda fonte separando o assunto do fundo. O resultado é uma imagem em que o contorno do objeto não vem de uma borda desenhada, vem do ponto em que a luz para.

O enunciado do concurso pedia três coisas, e a imagem responde às três. Luz contida: a fonte é única, direcional e cai rápido, e faz o mínimo necessário para que exista um rosto. Sombra como protagonista: é ela que define o contorno da cabeça, já que o cabelo não tem borda própria. Vazio como composição: os dois terços escuros não são sobra de enquadramento, estão posicionados.

Um infinitivo, sem sujeito e sem objeto

O regulamento torna o título obrigatório, e a maior parte dos títulos de concurso fotográfico faz uma de duas coisas: nomeia o que está no quadro ou instrui quem olha sobre o que sentir. “Ver” não faz nem uma nem outra.

É um verbo no infinitivo, a forma que não carrega pessoa, tempo nem número. Não diz quem vê. Não diz o que é visto. Dado a um retrato, onde a convenção manda nomear a pessoa, o lugar ou o estado de espírito, o título recusa as três coisas e nomeia apenas a operação.

A recusa deixa a pergunta aberta nos dois sentidos. A mulher no quadro está vendo alguma coisa fora do enquadramento, e é a única na fotografia que exerce o verbo do título. Quem observa a imagem também está vendo, e o que encontra é um vazio extenso e uma face que não devolve o olhar. O título serve às duas cenas e não decide entre elas.

O autorretrato acrescenta uma terceira. Num autorretrato, o sujeito se divide: a mesma pessoa vê, do lado de cá da câmera, e é vista, do lado de lá. Um verbo no infinitivo, que não marca pessoa nem número, é a única forma que não precisa escolher entre as duas posições.

O olhar sai do quadro, a boca fica em repouso e não em expressão, e a postura não se organiza para ser vista. Nada ali se apresenta a quem observa. O título fecha o raciocínio: a ação que ocupa a figura, e que a mantém fora do alcance de quem olha, é a mesma que dá nome à obra. A imagem retém sentido em vez de entregá-lo e obriga quem olha a demorar.

Num autorretrato, essa ausência de pose tem outra origem, porque a pessoa que aparece alheia ao olhar alheio é a mesma que decidiu onde a luz cairia e para onde o rosto se voltaria. A ausência de pose deixa de ser um instante flagrado e passa a ser uma construção: a fotógrafa montou a cena em que ela própria não posa.

O efeito não se desfaz por isso, e a autoria dele muda de lugar. Numa fotografia de outra pessoa, a não pose é o que o fotógrafo consegue esperar. Aqui, ela é o que a autora conseguiu executar sobre si mesma, o que exige o gesto mais difícil do autorretrato, que é o de tirar o próprio rosto da condição de quem se apresenta.

As outras inscrições

O conjunto inscrito se distribuiu por quatro estratégias, e nenhuma outra imagem levou a subtração tão longe.

Um grupo trabalha por redução extrema, com fundos pretos e o assunto ocupando fração mínima da área: um poste de luz entre bambus, um castelo japonês iluminado contra o vazio, uma ave branca descendo sobre água escura. Outro usa a sombra como desenho, e não como ausência: uma silhueta caminhando diante de parede branca sob a sombra de uma árvore, uma pessoa sentada no vão de uma porta, uma faixa de pedestres cortada por sombra projetada. Um terceiro transforma a luz em matéria visível, com feixes atravessando cobogó, veneziana ou neblina. O quarto trata a sombra como estado e não como recurso, com um homem curvado contra a janela de um apartamento, um gato de perfil olhando para fora e um rosto visto através do vidro de um carro.

O que o exercício produz

Um concurso interno que oferece um brinde e dois pontos no ranking não se explica pela premiação. Ele se explica pelo que provoca.

Tema livre pede ao associado aquilo que ele já sabe fazer. Tema com proibições obriga a fotografar fora do hábito: quem trabalha em cor precisa decidir o que faz sem ela, e quem preenche o quadro precisa descobrir o que sustenta um quadro vazio. O resultado visível está no conjunto das fotos inscritas, com quatro estratégias distintas para o mesmo enunciado. O clube já tratou dessa função em um ensaio sobre desafios fotográficos como laboratório do olhar, e a discussão sobre os critérios de quem julga aparece em outro texto, sobre o curador entre a estética e a filosofia da imagem.

O concurso interno é um exercício que faz com que a fotografia que estava no cartão de memória passe a existir diante de pares que fotografam com os mesmos meios e enfrentam os mesmos problemas. É uma escala pequena de circulação, e é a escala em que um fotógrafo consegue ouvir uma crítica e reconhecer quem a formulou.

“Ver” entrega uma mulher ocupada em olhar alguma coisa que quem observa não vai alcançar, colocada ali pela própria pessoa que olha. O título não promete mostrar. Nomeia um verbo, não diz quem o exerce, e deixa o resto no escuro, que era o que o concurso pedia.

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View Comments (2)
  1. É fantástico ler essa análise sobre o meu autorretrato, pois quando tirei, eu simplesmente estava experimentando, sem saber nada na realidade. Usei uma luminária de mesa, e montei o tripé junto a minha mesa, usando a minha câmera e uma lente pancake M.zuiko 14-42mm. Eu sentei na minha cadeira e com o meu celular abri o Oi share, app da Olympus, para usar o controle remoto para disparar o shutter da câmera. Eu apenas não quis olhar para a câmera, mas me lembro que muitas coisas passavam pela minha cabeça, eu estava enfrentando um momento muito difícil na minha vida, com depressão e crises de ansiedade, e isso foi antes do diagnóstico, eu ainda achava que ia conseguir resolver sozinha, e tentava comprimir esses sentimentos…a fotografia era o meu refúgio nos momentos que tudo ficava mais mais pesado. Provavelmente essa foto foi uma forma de expressão marcante do que eu estava sentindo naquele momento. Mas eu sempre tive e continuo tendo muita dificuldade em trabalhar com luz artificial… é ler esse texto que o Adilson escreveu me emocionou muito. É muito gratificante e um aprendizado para mim. Muito obrigada! Eu amei e estou muito feliz que meu autorretrato venceu o concurso interno de Sombras e Silêncio do Fotoclube Câmera e Luz.🥹😍🤍🖤

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