A curadoria de imagem de um casamento acontece em duas etapas distintas, e a segunda é a que define a autoria de quem fotografa. A tese é do fotógrafo Fabio Bueno, que a apresentou em palestra no Fotoclube Câmera e Luz: primeiro o fotógrafo escolhe o que entrega ao cliente, depois escolhe, dentro dessa entrega, o conjunto menor que vai para o site, para o álbum e para os prêmios. “A diferença entre um fotógrafo e um contador de história é na curadoria narrativa”, disse.
Bueno falou em 9 de junho de 2026, na Sala de Leitura do Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos, no encontro “A Narrativa na Fotografia de Casamentos”, promovido pelo Câmera e Luz, segundo a página de divulgação do evento no Sympla. Ele batizou a segunda etapa de “curadoria da curadoria”, ou curadoria narrativa, e a descreveu como o momento mais duro do processo, porque nele o fotógrafo decide o que representa o próprio trabalho, e não o que agrada quem contratou.
Duas peneiras, dois destinatários
Curadoria, no vocabulário do fotógrafo, é o trabalho de escolher e ordenar imagens depois da captura. Bueno usou como estudo de caso um casamento que fotografou em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Segundo ele, a cobertura gerou entre 7 e 8 mil arquivos, dos quais 4.094 passaram pela revisão inicial, 422 foram marcados como potenciais para álbum, slideshow e redes, e cerca de 2 mil chegaram ao casal.
Minutos depois, ao descrever o método fora do caso, ele trabalhou com outra escala: de 5 mil fotos, mil entregues, e dentro dessas mil, 200 que esboçam a narrativa. Os dois conjuntos de números descrevem a mesma lógica em proporções diferentes, e nenhum deles é regra. “Tem uma regra certa matematicamente? Não, cada casamento é cada casamento”, afirmou.
O que interessa na sequência não é a aritmética, e sim o corte entre uma peneira e outra. A primeira responde a uma pergunta de serviço: o cliente não saberia escolher sozinho entre milhares de arquivos, e cabe ao fotógrafo entregar um conjunto navegável. A segunda responde a uma pergunta de autoria. “A gente põe todas as fotos que a gente vai entregar pro cliente, mas dentro da curadoria, faça a curadoria da curadoria”, disse Bueno. “É o que funciona pra você. É o que vai pro site, é o que vai pro blog, é o que vai pro portfólio, é o que vai pra prêmio, é o que vai pra quadro.”
As quatro perguntas da segunda peneira
Bueno listou as perguntas que aplica a cada imagem na curadoria narrativa: se ela acrescenta algo, se move a história, se revela uma emoção e se conversa com a imagem anterior ou com a seguinte. A última costuma salvar fotos que o fotógrafo descartaria por conta própria, segundo ele, porque são as que ligam um bloco a outro. Ao mostrar os álbuns que levou ao encontro, apontou a função dessas passagens: “sempre tem que ter uma imagem que finaliza um capítulo e puxa pro próximo”.
A ideia de escolher entre variações do mesmo instante tem tradição na fotografia analógica. Ainda na parte inicial da palestra, Bueno citou o livro “Magnum Contact Sheets”, organizado por Kristen Lubben e publicado pela Thames & Hudson, que reúne folhas de contato de fotógrafos da agência Magnum. A folha de contato é a tira de miniaturas de um filme revelado, em que aparecem todos os quadros feitos, inclusive os que ninguém veria. Bueno usou o exemplo para dizer que a imagem publicada costuma ser a última de uma série de tentativas, e não um acerto isolado.
O ensaio dos acessórios, e a cláusula que nasceu dele
O caso que Bueno usou para separar as duas curadorias vem do começo da carreira. Um casal de veterinários levou o ensaio pré-casamento para uma fazenda em Campinas, com cavalos e búfalos, e desembarcou também com balões, quadro, lousa, faixa e uma grinalda de flores. Ele fotografou primeiro o que interessava à narrativa que estava construindo e deixou os acessórios para os últimos minutos. As fotos com os objetos foram entregues, em pasta separada, identificada como “acessórios”. Nenhuma delas entrou no portfólio.
“Se não acrescenta pra você, não posta, entrega pro cliente”, resumiu. “Nem tudo que funciona pro cliente funciona pra você e vice-versa.” A experiência teve efeito prático fora da edição: segundo Bueno, o contrato do estúdio saiu de uma página, no início, para nove, e uma delas trata apenas de acessórios em ensaios pré-casamento.
O tempo que a escolha custa
No bloco de perguntas, um participante quis saber quanto tempo leva uma entrega com esse volume de escolhas. Bueno respondeu que o contrato prevê de 90 a 120 dias para o trabalho completo de casamento, e que a edição propriamente dita consome de três a quatro dias de trabalho contínuo. Ensaios pré-casamento saem em torno de sete dias. Quem quiser a prévia antes disso paga por ela: há uma cláusula de entrega em 48 horas.
Ele afirmou que não terceiriza a edição e que recusa os programas que editam com inteligência artificial, mesmo com o prazo em aberto. O argumento apareceu ligado ao mesmo raciocínio da curadoria: a escolha do que mostrar, do que esconder, do que converter em preto e branco e do que recortar é parte do trabalho autoral, e não uma etapa mecânica a ser delegada.
Onde cada seleção vai parar
A separação entre as duas curadorias se desdobra nas superfícies de publicação. Bueno descreveu quatro, com lógicas próprias: o slideshow, que trata como álbum para assistir, montado no ritmo da música; o site, onde publica coberturas completas, com centenas de imagens; o carrossel de Instagram, que monta como mini-álbum, com quadros combinados dentro de cada cartão; e o álbum impresso, diagramado por capítulos, com alternância entre lâminas cheias e páginas de respiro. “O site é a casa”, disse, ao classificar as redes sociais como vitrines.
A distinção que ele levou ao clube não é estranha ao acervo do Câmera e Luz. O tema já apareceu no site em textos como os 12 pilares da curadoria fotográfica, que organiza os critérios de escolha, e em a autocuradoria, o fotógrafo diante do espelho, que trata da dificuldade de editar o próprio trabalho. A ideia de que escolher implica abrir mão está no centro de a seleção de fotos como ato de renúncia, publicado no canal de cultura fotográfica do clube.
O critério que Bueno repetiu ao longo da palestra funciona como régua para qualquer gênero, do retrato ao registro de natureza, e não apenas para o casamento: “narrar é escolher” e, do outro lado da mesma frase, “o que não soma, some”. A página da palestra no portfólio do clube reúne o registro da atividade.


