O fotógrafo e impressor Kenji Munekata anunciou que estuda retomar a impressão fine art em São José dos Campos, quase dez anos depois de fechar a KOI, ateliê que, segundo ele, foi pioneiro no segmento na cidade. O retorno em estudo viria em escala menor, voltado a provas e formatos pocket e com prioridade para associados do clube. “As impressões grandes não se pagam no Vale do Paraíba ainda”, disse, na conversa aberta com a plateia.
O anúncio foi o ponto mais concreto da palestra “Quando a Fotografia Toma Forma: O Papel da Impressão na Experiência Final da Imagem”, que o Câmera e Luz promoveu em 12 de maio de 2026, no Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Munekata dividiu a noite com Gervásio Kawai, distribuidor da Hahnemühle no Brasil, e a sala reuniu fotógrafos profissionais e entusiastas de várias cidades do Vale do Paraíba. Ao fundo, impressões expostas, algumas com mais de uma década, acompanhavam a conversa.
A corrente que não pode quebrar
A primeira distinção da noite separou fotografia fine art de impressão fine art. A primeira liga-se à intenção artística, não comercial; a segunda exige um processo material rigoroso, com papel adequado, tinta pigmentada, calibração de monitor e impressora e perfis de cor específicos para cada combinação de tinta, máquina e suporte.
Kawai resumiu o conjunto numa imagem: a impressão fine art é uma corrente. Captura, edição, impressão e conservação precisam manter a integridade, e basta um elo se romper para o resultado deixar de ser fine art, por mais caro que tenha sido o papel.
O retorno em escala menor
Foi nesse contexto que veio o anúncio. A KOI fechou em 2016, e Munekata avalia que o mercado da região ainda amadurece. Por isso, segundo ele, voltar pequeno, com provas e formatos reduzidos, é a forma honesta de testá-lo antes de pensar em grandes tiragens. A prioridade, disse, seriam os associados do clube.
As frentes que a noite abriu
A palestra deixou outras questões em aberto, que o clube pretende detalhar em textos próprios. Entre elas, a promessa de permanência da impressão fine art, que, segundo os palestrantes, só começaria a perder cor após décadas em condições de conservação adequadas, em contraste com as fotos coloridas que desbotaram nos álbuns de família. Outra é o modelo da Hahnemühle, que produz papel há mais de 440 anos no mesmo terreno, com água da mesma fonte e na orla de uma reserva florestal alemã, transformando essa estabilidade em diferencial. Munekata levantou ainda uma hipótese provocadora, que ele próprio apresentou como especulação: a de que a hegemonia da Canon no Brasil teria raiz cromática, com um tom de pele alinhado ao padrão brasileiro, enquanto Nikon e Hasselblad teriam atendido melhor a mercados como Japão e Escandinávia.
Um reencontro
Para o clube, a noite teve algo de reencontro. Obras de Munekata aparecem com frequência em seu acervo histórico, do Salão de Araraquara ao Salão de Jaú e à exposição Volume Morto. Kawai, por sua vez, chegou com a perspectiva de uma fabricante que atravessou quatro séculos. Entre impressões antigas na parede e a discussão sobre o que faz uma imagem durar, o tema central foi menos o equipamento e mais o que acontece com a fotografia depois do clique: como ela ganha corpo, cor estável e permanência, assunto que o clube já tratou em chave editorial no ensaio Antes da foto, o suporte. Se o ateliê voltar, a cidade terá de novo onde imprimir a sério.


