Foto: Fábio Bueno

Do clique à história: a narrativa em fotografia de casamento

Em encontro no Parque Vicentina Aranha, o fotógrafo Fabio Bueno apresentou a fotógrafos e iniciantes do Vale do Paraíba um método para transformar a cobertura de um casamento em história, das quatro perguntas antes do clique à curadoria que separa cliente de autor.

O fotógrafo Fabio Bueno afirmou, em palestra no Fotoclube Câmera e Luz, que o traço decisivo de uma boa fotografia de casamento não está no equipamento nem no clique isolado, e sim na narrativa que organiza as imagens em história. Diante de cerca de 26 participantes reunidos na Sala de Leitura do Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos, na noite de 9 de junho de 2026, ele resumiu a tese na frase com que encerrou a fala: “uma fotografia registra um instante, uma narrativa preserva uma vida”.

A palestra “A Narrativa na Fotografia de Casamentos” reuniu fotógrafos profissionais e iniciantes, alguns vindos de outras cidades do Vale do Paraíba, como Taubaté. Mais do que discutir câmeras e ajustes, Bueno propôs deslocar a atenção para o processo de seleção, organização e apresentação das fotos, e defendeu que o mesmo raciocínio serve a outros gêneros, do ensaio de gestante à fotografia de natureza.

Foto: Fábio Bueno

Os três degraus da fotografia

Bueno organizou o argumento em torno de três estágios que costuma apresentar em seus cursos. O primeiro é a fotografia como registro, a foto de documento, a selfie, o prato antes da refeição. O segundo é a fotografia como expressão, em que o autor impõe composição e olhar para contar algo. O terceiro, que descreveu como meta de longo prazo, é a fotografia conceitual, tratada como arte. Para ele, boa parte dos iniciantes permanece no primeiro degrau, e o desafio está em subir para o segundo.

Para ilustrar a diferença, recorreu a uma imagem premiada em 2016, a primeira de sua trajetória a receber prêmio. Na cena, um noivo coloca a aliança no dedo errado e reage com uma careta ao ser corrigido pelo celebrante. Bueno mostrou como a mesma situação muda de sentido conforme a forma de contá-la, e como o recorte em preto e branco dirigiu o olhar para o gesto, descartando elementos que dispersavam a atenção.

Quatro perguntas antes do clique

O método que apresentou parte de quatro perguntas, quem, quando, onde e por quê, que o fotógrafo deve responder com as imagens. “Quem” separa o motivo principal, o casal, dos demais personagens, do padre aos padrinhos, sob uma proporção que ele chama de regra 80-20: oitenta por cento das fotos giram em torno do casal, vinte por cento, dos coadjuvantes. “Quando” e “onde” situam a data, a estação, o horário e o ambiente. “Por quê” trata da conexão que justifica a celebração.

A partir daí, Bueno recomendou fotografar “pensando em capítulos”, da preparação dos noivos aos detalhes do lugar, da cerimônia ao ensaio de conexão após o “sim” e à festa. Sobre a técnica, resumiu uma inversão de prioridades: “a última coisa que nós fotógrafos devemos fazer como fotógrafos é apertar o botão da câmera”, primeiro vem o domínio técnico, depois o pensamento narrativo.

A curadoria que separa o cliente do autor

O trecho mais detalhado da fala tratou da edição. Usando um casamento que fotografou em São Sebastião como estudo de caso, Bueno relatou ter partido de milhares de arquivos até chegar a uma seleção ampla entregue ao casal e, dentro dela, a um conjunto menor destinado ao site, ao álbum e a prêmios. A essa segunda etapa deu o nome de curadoria narrativa, “a curadoria da curadoria”. “Narrar é escolher”, disse, e resumiu o critério de descarte em outra frase: “o que não soma, some”.

Ele defendeu ainda o slideshow, o site, o carrossel de rede social e o álbum impresso como vitrines distintas de uma mesma história, cada uma com sua lógica de montagem.

O algoritmo em questão

Na reta final, Bueno criticou o imediatismo e a pressão das redes sociais sobre a linguagem fotográfica. Afirmou manter vídeos longos no próprio Instagram quando a narrativa pede, contrariando o formato sugerido pela plataforma, e definiu a hierarquia que adota: “o site é a casa”, as redes são a vitrine. “Nós, como fotógrafos, somos contadores de história. Nós não somos funcionários do Facebook e do Instagram”, disse, propondo à plateia a pergunta se fotografam para pessoas ou para plataformas. Reconheceu, porém, o outro lado, a necessidade de publicar para vender e de atender ao que o cliente pede.

Perguntas da plateia

No bloco final, os participantes levaram o debate para o dia a dia do ofício. Bueno falou sobre prazos de entrega, hoje de até 90 dias em seu contrato, sobre o crescimento do próprio contrato de uma para nove páginas e sobre cláusulas de convivência em festas, como a que pede o desligamento temporário do laser dos DJs para proteger o equipamento.

O tema conversa com a série de textos do clube sobre o poder da narrativa e a ordem das fotos e com a discussão sobre curadoria reunida em os 12 pilares da curadoria fotográfica e em a seleção de fotos como ato de renúncia. A palestra integra a agenda de encontros e palestras do Câmera e Luz.

Ao fim da noite, o palestrante disse querer se somar ao clube, num gesto que devolveu à plateia o tema da própria palestra: fotografia como troca, e não como disputa. O que ficou no ar não foi um repertório de ajustes de câmera, mas uma pergunta sobre para quem, afinal, se fotografa.

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