O fotógrafo Alexander Landau usou o tempo verbal como argumento. Ao descrever, em palestra no Fotoclube Câmera e Luz, para quem “o fotógrafo de alimentos trabalhava”, ele colocou no passado a produção de imagem para a grande indústria e sustentou que a inteligência artificial ameaça primeiro a parte da fotografia de comida que já havia sido esvaziada de autoria. O que resiste, segundo ele, é a foto construída com luz trabalhada, verdade e assinatura.
A palestra aconteceu em São José dos Campos, em 24 de julho, na véspera do workshop “Luz para Fotografia de Alimentos” que o fotógrafo conduziria no dia seguinte. Diante de uma plateia de fotógrafos profissionais e entusiastas, Landau percorreu quatro décadas de portfólio e transformou cada exemplo em uma aula sobre onde está, hoje, o valor do ofício. O encontro importa porque coloca sobre a mesa três perguntas que a categoria costuma evitar: quanto vale uma foto, o que é verdade em uma imagem de comida e o que a automação leva embora.
A linha que a IA não cruza
O ponto de partida de Landau foi uma distinção de mercado. Para ele, o produto padronizado de gôndola, o corte de frango na bandeja de supermercado, já chega tão despido de intenção que a origem da imagem se torna indiferente. “Se aquilo for IA, não muda nada”, afirmou. O raciocínio inverte-se quando o produto tem autoria: um cardápio de restaurante autoral, avaliou, não recorre à imagem sintética, porque ali há desenho, assinatura e um público disposto a investir.
Landau estendeu o argumento ao retrato, gênero que também pratica, com uma analogia de confiança: ninguém entregaria uma causa grave a um profissional representado por um retrato falso, e a alta gastronomia, na mesma lógica, precisa de uma imagem verdadeira. A conclusão que ele deixou implícita é de carreira. Quem se especializa no segmento mais padronizado, o recorte em fundo branco para embalagem, entra pela porta mais exposta à substituição. A posição converge com o que o fotógrafo já havia dito ao clube ao afirmar que faz foto para si, não para o cliente: recusar a automação e defender a autoria são, para ele, a mesma posição vista por dois ângulos.
A foto de comida sempre foi uma construção
Boa parte do encontro desmontou a ideia de que a fotografia de alimentos registra a comida como ela é. Landau detalhou artifícios consagrados de bancada: espuma persistente obtida com um pequeno dispositivo de aquário, gotas de condensação feitas com água e glicerina sobre a superfície previamente preparada, estruturas de apoio para sustentar preparações instáveis. Nada disso, argumentou, é novidade ou trapaça; é a gramática técnica de um gênero publicitário.
Ele distinguiu com clareza o seu papel do papel de quem cuida da comida diante da câmera. “Um bom food stylist salva a vida”, disse, creditando à direção de arte do prato parte decisiva do resultado. Uma profissional de food styling que participou do encontro situou uma mudança de época: antes da pandemia, segundo ela, a imagem de alimento perseguia o impecável, “tudo era muito mais plastificado”; depois, passou a buscar o apetite, com textura e queijo derretido, mesmo quando isso exige ajustar cor e forma de um produto que chega quase cru. A observação sugere um deslocamento cultural mais amplo, do luxo asséptico para o afeto e a imperfeição, ainda que o palestrante e a estilista tenham tratado o tema apenas no terreno da técnica.
Entenda a técnica: luz aditiva e a sombra como aliada
No núcleo formativo da palestra, Landau resumiu o método em uma frase: “fotografia é escrita”. A partir dela, organizou um vocabulário de luz acessível a quem começa. Ele separou duas formas de compor uma imagem. Na subtrativa, típica do fotojornalismo, o fotógrafo limpa a cena e remove ruídos para transmitir a mensagem. Na aditiva, que domina o estúdio, parte-se de uma superfície neutra e acrescenta-se luz e elemento até construir a cena, como quem pinta sobre tela em branco.
Desse alicerce, o fotógrafo defendeu escolhas que contrariam receitas prontas. Prefere pouca profundidade de campo, o recurso de deixar o fundo desfocado para isolar o assunto, como marca de elegância, e trata o contraste e a sombra como elementos centrais, não como defeitos a corrigir. “A luz só é bonita por causa da sombra”, afirmou, aproximando a fotografia de comida do claro-escuro da pintura. Mais do que equipamento, o que ele ensinou foi uma hierarquia de decisões: onde colocar o foco e de onde trazer a luz pesam mais que a etiqueta da câmera.
O ofício sem romantização
Landau recusou qualquer verniz sobre a profissão. “Ser fotógrafo é para forte, não é para fraco”, disse, ao descrever um mercado que aperta cachês e pressiona por volume. Ele apontou um paradoxo da transição do filme para o digital: antes, o laboratório entregava o material pronto; hoje, gerenciamento de cor, tratamento e pós-produção recaíram sobre o próprio fotógrafo. “A gente está trabalhando muito mais e ganhando menos”, avaliou.
Contra a pressa, defendeu fotografar pouco, disciplina herdada da era do filme, quando cada clique tinha custo e o resultado só aparecia no dia seguinte. A escassez deliberada, nessa leitura, deixou de ser limitação técnica e virou critério de valor, o mesmo que separa a imagem de autoria da imagem como insumo. É uma forma de dizer que o antídoto para a automação não é competir em quantidade, mas insistir no que a facilidade técnica não entrega: tempo, critério e olhar.
O que a passagem por São José dos Campos deixou
Ao receber um fotógrafo de quase quatro décadas de estrada, o Câmera e Luz transformou uma masterclass técnica em um retrato do próprio ofício em transformação. A palestra funcionou como leitura de um mercado que a inteligência artificial obriga a se explicar, e a resposta de Landau foi menos um lamento do que um critério: a foto que sobrevive é a que tem autor.


