Foto: Adilson Martins

Ale Ruaro fotografa ensaio em São José dos Campos e discute os limites da fotografia de rua

Ale Ruaro mostrou um ensaio feito em 24 horas em São José dos Campos para defender que fotografia de rua depende de preparo, não de sorte, e detalhou os limites éticos e os riscos físicos do ofício em palestra no Câmera e Luz.

Para demonstrar que fotografia de rua não depende de sorte, o fotógrafo Ale Ruaro chegou a São José dos Campos um dia antes de sua palestra no Fotoclube Câmera e Luz e produziu, em menos de 24 horas, um ensaio de 120 fotos numa cidade que não conhecia. Selecionou 17 delas para abrir o encontro de 14 de julho, na Sala de Leitura do Parque Vicentina Aranha, e resumiu a tese que sustentou toda a noite: “é possível fotografar em qualquer dia, em qualquer clima, com qualquer luz, a qualquer hora, em qualquer lugar. Basta ter determinação.”

Autor de 11 fotolivros e com projetos em coleções como a da Biblioteca Nacional da França e a do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Ale Ruaro já havia passado pela programação do clube em abril, quando lançou o livro “Vestígios” ao lado de Antonello Veneri. A palestra de julho aprofundou o que ficara em aberto naquele encontro: como um fotógrafo documental de carreira longa organiza o próprio trabalho, negocia limites éticos na rua e administra o risco físico do ofício.

O ensaio de uma noite antes

Ale Ruaro abriu a palestra mostrando o ensaio feito horas antes de subir ao palco. Contou que compôs um retrato de um manobrista diante de uma fachada em ruínas porque a fachada, sozinha, “não dava foto”: pediu ao homem que posasse, escolheu a luz e o ângulo e fez a imagem que buscava. Em outra cena, mirou o instante em que a sombra de uma senhora que atravessava a rua entrasse dentro de um triângulo de luz projetado no chão, evitando a versão mais óbvia, com a figura iluminada em vez da sombra.

Também relatou o oposto: ao pedir para fotografar duas senhoras chinesas na rua, recebeu um não e recuou, mesmo sabendo que poderia ter feito a imagem sem que elas percebessem. “Seria uma injustiça fazer aquilo com aquelas senhoras”, disse. O fotógrafo passou o dia acompanhado por Danilo Lima – presidente do fotoclube – , que participou da caminhada fotográfica e descreveu Ale Ruaro em “modo invisível” ao fazer imagens de perto sem que as pessoas fotografadas notassem o gesto. Parte das fotos feitas naquele dia em São José dos Campos está publicada no perfil de Ale Ruaro no Instagram:

Os limites de fotografar sem pedir autorização

Grande parte da palestra tratou da ética fotográfica por trás da fotografia sem autorização formal. Ale Ruaro afirmou que trabalhou 15 anos vinculado a banco de imagens, período em que aprendeu direito de imagem em cursos e palestras jurídicas, e que hoje não pede mais autorização formal a quem fotografa na rua. Diante de um morador em situação de rua fotografado em São José dos Campos, disse manter o contato da pessoa para uma eventual negociação comercial, caso a imagem seja usada em publicidade, ainda que sem documento assinado.

Relatou cuidado redobrado com crianças, idosos e grupos em situação de vulnerabilidade, citando hesitação em relação a um projeto sobre imigrantes africanos sem documentação em São Paulo. Também descreveu o caso de uma mulher com roupa que considerou provocante e que, em sua avaliação, já devia estar sendo fotografada sem consentimento por celulares na rua, uma invasão de liberdade que disse ter evitado repetir.

O tema do risco físico também apareceu. Ale Ruaro descreveu episódios de tensão durante trabalhos de fotografia documental em áreas conflagradas, incluindo um confronto de cerca de 40 minutos que classificou como um dos maiores medos que já viveu. Ainda assim, disse ter retomado o mesmo tipo de trabalho depois desses episódios. “A câmera não é uma arma”, afirmou, atribuindo o risco ao medo visível do fotógrafo, não ao equipamento.

Foto: Adilson Martins

Entenda a técnica

Questionado sobre foco, Ale Ruaro descreveu a regra Sunny 16, método antigo de calcular exposição sem fotômetro a partir da luz do sol: com ISO 100 e diafragma f/16, a velocidade do obturador equivale ao valor do ISO. A partir dela, disse fotografar rotineiramente com abertura f/11 e foco fixo entre um metro e o infinito, sem reajustar o foco durante o trabalho na rua, técnica conhecida como foco hiperfocal. Também falou em manter distância mínima de um metro das pessoas fotografadas e nunca cumprimentá-las com aperto de mão, prática que disse adotar para preservar a capacidade de reagir ou se afastar caso algo saia do controle.

Descreveu ainda atenção obsessiva à posição dos pés de quem fotografa (a “pegada”) e afirmou possuir 14 lentes diferentes, com preferência declarada pela 50mm, embora indique a 35mm ou a 28mm como escolha única, caso fosse obrigado a decidir. Citou o fotógrafo húngaro-americano Robert Capa, lembrando a ideia difundida por ele de que uma foto ruim é sinal de que o fotógrafo não chegou perto o suficiente da cena, e mencionou o trabalho do fotógrafo americano Alex Webb, da agência Magnum, conhecido por fotografar preferencialmente no fim da tarde e à noite.

Foto: Adilson Martins

Como o trabalho se sustenta

Questionado sobre como sustenta o próprio trabalho no mercado de fotografia, Ale Ruaro disse manter 150 mil fotos organizadas e recuperáveis “em um segundo”, e afirmou produzir o 12º fotolivro da carreira, um projeto que reúne 100 autores convidados para o que descreveu como o primeiro livro coletivo de retrato do Brasil, com distribuição planejada para instituições e colecionadores de fotografia. Disse manter uma locadora de equipamentos fotográficos da marca Leica, que classificou como a primeira do gênero no Brasil, além de prestar consultoria de compra do mesmo equipamento e atuar como editor de livros de outros autores, entre eles o de Antonello Veneri. Afirmou postar pouco no Instagram, apesar de fotografar diariamente, e disse disputar mais de 35 editais e projetos de exposição e livro somente neste ano.

Ao encerrar a palestra, Ale Ruaro anunciou o início de parcerias com o LabLab, que descreveu como o maior laboratório de fotografia analógica do Brasil, com a fabricante chinesa de lentes Thypoch, com baionetas para Sony, Nikon e Canon, e com a Canson Infinite, linha profissional de papel fine art da Canson usada para impressão de seu trabalho.

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  1. Excelente palestra e com resultado quase instantâneo, de um ensaio fotografado aqui em São José dos Campos horas antes da palestra, provando que é possível fazer esse tipo de foto em quaisquer cidades.

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