Todo dia, quando o sol se põe, o Parque Estadual de Campos do Jordão, mais conhecido como Horto Florestal, se despede dos últimos visitantes e fecha os portões. Turistas voltam para os hotéis do centro. Bicicletas param, quiosques desmontam, funcionários encerram o expediente. O parque parece descansar. Não descansa. Começa a segunda parte do dia, invisível a quase todo mundo. É outra paisagem, com outra escala e outra fauna, e é essa paisagem que o Horto Florestal de Campos do Jordão apresenta a quem chega ali à noite com uma câmera nas mãos.
Essa outra paisagem é a escuridão. Segundo Ricardo Takamura, fotógrafo que conduz o workshop “A Luz Oculta” dentro do parque, “essa região de campos é um dos bordos mais escuros daqui da Mantiqueira”. A Serra da Mantiqueira, cadeia montanhosa que corre entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, funciona como barreira natural que contém a poluição luminosa vinda do Vale do Paraíba, mais populoso. O relevo faz o trabalho de anteparo. Do outro lado da serra, cidades como Taubaté e Pindamonhangaba iluminam suas noites. Aqui em cima, o brilho não passa.

Araucárias contra o céu
O elemento mais visível dessa paisagem é a araucária. A espécie Araucária angustifólia, nativa da Mata Atlântica de altitude e listada como criticamente ameaçada de extinção pela IUCN, pode passar de trinta metros de altura e viver mais de duzentos anos. No Horto, há centenas dessas árvores concentradas em áreas de fácil deslocamento, muitas delas centenárias. À noite, elas se transformam em silhueta. A copa, com formato de candelabro invertido, recorta o céu de um jeito que nenhuma outra árvore brasileira faz. Fotógrafos noturnos procuram, no mundo todo, silhuetas assim. Poucas paisagens oferecem tantas juntas.
Compor com araucária mudou a linguagem visual da astrofotografia brasileira nas últimas duas décadas. A árvore virou assinatura. Quando a Via Láctea aparece atrás dela, a imagem passa a dizer algo sobre lugar, e não apenas sobre céu. É por isso que Takamura escolhe as posições de câmera do workshop em função das árvores tanto quanto em função do céu. “Cada local é escolhido cuidadosamente de acordo com as datas”, explica.
O que se ouve antes de se ver
A segunda camada da paisagem noturna é sonora. Numa das saídas do workshop, o grupo escutou um lobo-guará. O canis mais alto da América do Sul, com pelagem avermelhada e patas escuras, vive discretamente em áreas de cerrado e mata alta. Sua presença no entorno do parque, confirmada por relatos de guias e fotógrafos, indica saúde ecossistêmica. Também há corujas, cujo pio orienta o fotógrafo a olhar para copas específicas, e o queixada, porco selvagem de manada que se avisa por um estalar de dentes característico. Marco Thommazo, fotógrafo participante do workshop, resume a experiência sensorial nessas palavras: “ouvir pássaros diferentes, um lobo-guará e corujas à noite” foi, para ele, parte central do valor da saída.
Ouvir a fauna, para quem fotografa, faz parte do enquadramento. A neblina que se aproxima é anunciada primeiro pelo som que ela abafa. O vento muda de camada antes de mudar de força. O fotógrafo que aprende a escutar deixa de ser surpreendido pela paisagem e passa a antecipar seus movimentos.

A neblina como sujeito
A neblina, frequente nas noites de Campos do Jordão, costuma ser vista como obstáculo. Para o fotógrafo noturno, funciona como sujeito. Quando entra por entre as araucárias, a névoa cria camadas de profundidade que a luz do dia dilui. Ela suaviza contrastes, sugere distâncias, dá corpo à luz da lua ou a lanternas distantes. Numa das noites do workshop, com neblina densa cobrindo boa parte do parque, o roteiro se adaptou. Em vez de esperar o céu limpar, o grupo passou a fotografar a própria neblina, tratando-a como sujeito principal e não como interferência. “A neblina estava fantástica”, registrou Takamura na ocasião.
Compor com neblina exige um tempo diferente. A cena muda a cada trinta segundos. Uma foto que estava perfeita há um minuto pode ter perdido o vulto que a fazia funcionar. O fotógrafo passa a operar com paciência ativa: montar, esperar, refazer.
Bordo escuro da Mantiqueira
A explicação para a qualidade do céu do Horto está em três variáveis que se combinam: altitude, relevo e distância urbana. A cidade de Campos do Jordão fica acima de 1.600 metros. O ar é mais fino, o que significa menos partículas em suspensão entre a câmera e as estrelas. O relevo da Serra da Mantiqueira bloqueia parte da luz que sobe do Vale do Paraíba. E o parque está afastado do núcleo comercial e residencial da própria cidade, o que reduz ainda mais a interferência local.
O resultado se traduz em uma escala reconhecida internacionalmente para medir a escuridão do céu, chamada Escala de Bortle, que vai de 1 (céu perfeito, desértico) a 9 (centro de metrópole). Segundo estimativas correntes registradas em mapas de poluição luminosa, o entorno do Horto se aproxima da classe 3 ou 4, o que já permite fotografar as cores da Via Láctea com nitidez, ainda que não seja o céu mais escuro do país. Para quem mora no Vale do Paraíba ou na região metropolitana de São Paulo, entretanto, é o céu escuro mais próximo. A poucas horas de carro.
Depois do portão
Fotografar o Horto Florestal à noite requer autorização específica. As saídas do workshop acontecem sob permissão concedida pela administração do parque, com ponto de encontro definido e roteiro previamente combinado. Durante as sessões, os pontos fotográficos ficam ocupados apenas pelo grupo, sem interferência de outros visitantes. A escuridão se mantém estável, o silêncio se preserva, e cada composição pode ser trabalhada com o tempo de exposição que precisar.
Essa condição de exclusividade foi tratada com mais detalhe na primeira matéria desta série. Aqui, cabe dizer que o Horto Florestal se torna, à noite, um espaço fotográfico contínuo, sem ruído externo, ideal para quem começou pela fotografia da Via Láctea e agora quer testar composições mais autorais, no estilo das obras reunidas no acervo autoral de Ricardo Takamura.
O salto seguinte
Esta é a terceira matéria de uma série sobre o workshop “A Luz Oculta” e sobre o que a fotografia noturna revela em Campos do Jordão. A próxima matéria sai do parque e sobe pela Estrada das Pedrinhas, trecho do Caminho da Fé que liga Campos do Jordão a Guaratinguetá, atravessando um dos territórios mais escuros e mais altos do estado de São Paulo. É lá que o fotógrafo encontra a Trilha da Celestina, o mirante sobre o Vale do Paraíba e a vista longínqua para a Pedra do Baú.
Para acompanhar os próximos textos da série, vale seguir o canal de Cultura Fotográfica e as próximas atividades especiais do Fotoclube Câmera e Luz.


