O Fotoclube Câmera e Luz reuniu sócios e público da comunidade com as câmeras na mão em 25 de agosto para preparar a fotografia do eclipse lunar desta quinta-feira, e o convidado abriu a noite desmontando a expectativa da sala. Para o fotógrafo Fábio Monfrin, não existe configuração de câmera que resolva o fenômeno do início ao fim. No lugar dela, ele entregou uma ordem de ajuste, e é ela que está reunida abaixo.
O eclipse começa na noite desta quinta, 27, e termina na madrugada de sexta, 28. O Observatório Nacional calcula que 96,2% da superfície lunar estará dentro da sombra da Terra no máximo, à 1h13 pelo horário de Brasília, e a NASA classifica o fenômeno como um eclipse parcial profundo. É essa quase totalidade que cria o problema técnico da noite: uma faixa estreita da Lua continua recebendo luz direta do Sol enquanto o resto escurece, e o contraste entre as duas áreas não cabe em uma única exposição.

Confira o kit antes de sair de casa
Monfrin fechou a aula com a frase que resume este bloco: “cinco minutos de conferência pode salvar várias horas de eclipse”. A recomendação dele é fazer essa conferência ainda de tarde, e não às dez da noite.
Na lista: baterias carregadas e ao menos uma reserva, ou uma bateria dummy, que é uma peça sem carga própria ligada a uma fonte externa ou a um power bank. Ele contou que perdeu cerca de 15 minutos de sequência no eclipse de março do ano passado por não notar a bateria acabando. Cartões formatados e com espaço. Lente limpa, tripé firme, intervalômetro ou disparador, lanterna de luz vermelha para não ofuscar quem estiver ao lado, agasalho, alimento e uma cadeira, porque a Lua fica alta e o pescoço cansa de olhar para cima por horas.
Um item específico da madrugada de quinta: a cinta aquecedora, presa junto à lente frontal e ligada em USB. Com a umidade prevista para a região, o vidro tende a embaçar, e a cinta mantém o elemento frontal aquecido para o orvalho não se formar.
A configuração de partida
Os participantes ajustaram os próprios equipamentos durante a explicação. Monfrin pediu captura em RAW no lugar de JPG, disparo manual, foco manual, balanço de branco fixo e estabilização da lente desligada.
Cada pedido teve um motivo. O JPG chega do sensor já editado pela câmera e limita o quanto se recupera de sombras e realces depois. O balanço de branco automático muda de foto para foto e inviabiliza uma sequência longa. A estabilização, que ajuda o fotógrafo de aves com a câmera na mão, corrige um movimento que não existe quando o equipamento está no tripé, e o resultado é foto trêmula em vez de nítida.
Sobre o foco, ele avisou que a Lua não está no infinito da lente, e que a marca de infinito gravada no corpo não coincide com o ponto real. O caminho que ele indicou: focar no automático durante a fase de Lua cheia, passar para manual, ampliar a visualização no visor em cinco ou dez vezes e refinar até as crateras aparecerem desenhadas pelo assistente de foco. E conferir de novo algumas vezes ao longo da noite, porque a mudança de temperatura desloca o foco.
A abertura fica fixa no ponto mais nítido da lente, e não se mexe mais. Ele deu o próprio exemplo: uma Sigma 150-600mm abre até f6.3 em 600mm, e o ponto mais nítido dela fica em f8.
O ponto de partida sugerido é 1/1000 de segundo com ISO 200 na Lua cheia.
O que mudar, e quando
A ordem que ele estabeleceu é curta. A abertura não muda. A velocidade é a variável de trabalho. O ISO entra por último, e só quando a velocidade chegar ao limite.
Esse limite depende da distância focal e da resolução do sensor: quanto mais longa a lente e mais alta a resolução, mais cedo o movimento da Lua aparece na imagem. Numa lente de 800mm sem equipamento de rastreamento, Monfrin apontou 1/8 de segundo como teto. Sobre o ISO, ele foi direto: não tenha medo de subir, porque hoje o Lightroom reduz bem o ruído, e é melhor uma foto com ISO alto do que um arquivo sem a informação necessária.
Quem decide o momento de cada mudança é o histograma, o gráfico que mostra onde estão os pixels da foto, dos pretos à esquerda aos brancos à direita. Numa foto de eclipse, segundo ele, esse gráfico se parece com uma pista de skate: dois picos nos extremos, por causa do céu escuro e do ponto iluminado, e quase nada no meio. O risco é encostar nas bordas. “Aquela área clipada vai ficar cinza, mas ela não vai revelar o que não apareceu ali na foto”, explicou. Área queimada não volta, nem em RAW.
As referências de ajuste que ele apresentou, com os horários calculados pelo Observatório Nacional:
| Fase | Horário de Brasília | Referência de ajuste |
|---|---|---|
| Lua cheia e início da penumbra | a partir das 22h24 | 1/1000 de segundo, ISO 200 |
| Penumbra avançada | por volta das 23h | reduzir para 1/500 |
| Fase parcial, sombra avançando | das 23h34 às 2h52 | baixar a velocidade e subir o ISO quando o histograma pedir, com teto de 2 segundos e ISO 800 |
| Máximo | 1h13 | maior contraste da noite, atenção aos brancos |
| Saída da sombra | até 4h02 | refazer o caminho ao contrário |
A escolha que define a foto
Não há exposição única que entregue as duas áreas. Expor para a faixa iluminada preserva a textura das crateras e deixa a parte avermelhada escura demais. Expor para a sombra entrega o vermelho pronto e queima a faixa clara.
Monfrin declarou a própria preferência pela segunda opção, e disse que ninguém repara na área pequena que estoura. Quem quiser as duas áreas precisa fotografar em bracketing, que é uma série de exposições diferentes do mesmo instante, e juntá-las depois num programa que trabalhe em camadas. Para a borda entre as áreas ficar natural, ele recomendou cinco ou sete exposições em vez de três.
Há um detalhe que só o eclipse parcial oferece. Entre a área iluminada e a alaranjada aparece uma faixa de cor púrpura azulada, visível apenas se a foto estiver bem exposta, e que não existe na fase de totalidade.
Onde a Lua vai estar
Ela atravessa o céu durante o fenômeno. Segundo os dados apresentados na aula, começa a 63 graus de elevação e 63 graus de azimute, entre o leste e o nordeste, chega ao máximo a 68 graus de elevação e 307 graus de azimute, já a noroeste, e termina a 31 graus de elevação, a oeste.
Na prática, nenhuma câmera fixa cobre essa trajetória inteira, nem em grande angular. Quem usa tripé sem rastreador precisa conferir o enquadramento de tempos em tempos, e quanto mais longa a lente, mais frequente é o ajuste.
Se o plano for um vídeo
A conta é simples. As 3h18 da fase parcial dão 11.880 segundos. Com um intervalo de 15 segundos entre fotos, saem 792 imagens, que rendem 33 segundos de vídeo a 24 quadros por segundo, ou 26 segundos a 30 quadros.
Monfrin sugeriu intervalos entre 10 e 20 segundos, e por um motivo prático: é nesse espaço que dá tempo de ler o histograma, decidir e ajustar entre uma foto e outra. Quem quiser intercalar bracketing na sequência vai abrir um vazio de três ou quatro frames, o que, segundo ele, não compromete o vídeo final.
O saldo da noite não foi um conjunto de números para copiar. Foi a lista do que conferir antes de sair de casa e a instrução de olhar o histograma entre uma foto e outra.


