Homem sem camisa inclinado contra uma parede com os olhos fechados, em uma fotografia antiga e granulada
"Autorretrato como afogado", de Hippolyte Bayard, de 1840, encenação de protesto pelo esquecimento de sua contribuição à fotografia. Crédito: Hippolyte Bayard. Domínio público via Wikimedia Commons.

Hercule Florence: o inventor que Campinas guardou por 140 anos

Em 1833, no interior de São Paulo, Hercule Florence já chamava de photographie o que fazia com nitrato de prata e luz. Sua descoberta isolada, provada por Boris Kossoy, mostra que a fotografia não teve um pai, teve uma época, e vários autores ao mesmo tempo.

No mesmo período em que Paris se preparava para anunciar a fotografia ao mundo, ela já tinha nome no interior de São Paulo. Enquanto a França organizava a apresentação do daguerreótipo, tema da matéria que abriu esta série, um desenhista franco-monegasco radicado na então Vila de São Carlos, hoje Campinas, registrava em seus cadernos a palavra photographie e produzia imagens fixadas pela luz. Chamava-se Hercule Florence, e sua história obriga a refazer uma pergunta que parece simples: quem inventou a fotografia?

Retrato de Hercule Florence (1804-1879), o desenhista franco-monegasco que chegou à fotografia no interior paulista. Crédito: Retrato de Hercule Florence, Centro de Memória da Unicamp / Instituto Hercule Florence. Domínio público.

Um desenhista às margens do mundo

Antoine Hercule Romuald Florence nasceu em Nice em 1804 e chegou ao Brasil ainda jovem. Antes de se fixar em Campinas, atuou como desenhista na expedição científica do barão de Langsdorff, que percorreu o interior do país na década de 1820. Foi nesse ambiente, longe dos centros europeus de ciência e de suas academias, que ele começou a investigar como registrar imagens sem a intervenção da mão.

Vale reter esse ponto de partida, porque ele explica quase tudo o que veio depois. Florence trabalhava isolado, sem laboratórios, sem interlocutores especializados e sem imprensa científica para divulgar o que fazia. O que para um pesquisador europeu seria uma descoberta anunciada em sociedade, para ele foi uma anotação de caderno.

Reprodução por contato de rótulos para vidros de farmácia, feita por Hercule Florence por volta de 1833, entre os registros fotográficos mais antigos preservados nas Américas. Crédito: Hercule Florence, Coleção Instituto Hercule Florence (foto Patricia De Filippi e Millard Schisler). Original em domínio público.

Uma palavra nascida numa botica

A partir de 1832, Florence passou a testar a fixação de imagens pela câmara escura. Contou com a ajuda do boticário e botânico Joaquim Corrêa de Mello, e foi dessa parceria que saiu não só o método, mas o próprio nome. No manuscrito conhecido como Correspondance, Florence anotou: “Em 1832, assaltou-me a ideia de imprimir pela ação da luz sobre o nitrato de prata. O Sr. Correia de Mello e eu demos ao processo o nome fotografia”.

As experiências de janeiro de 1833 foram rústicas e reveladoras. Numa delas, ao expor papel embebido em nitrato de prata, ele percebeu que o claro saía escuro e o escuro saía claro. Havia descrito, sem essa palavra, o negativo. Florence chegou ainda a usar sais de ouro como substância sensível à luz, possivelmente o primeiro na história a fazê-lo, e improvisou reagentes com o que tinha à mão, urina inclusive, no lugar do amoníaco.

O interesse dele, convém explicar, era prático. Florence procurava um modo de reproduzir imagens em série sem depender de um artista ou de uma prensa, e viu na luz uma técnica de impressão. O que restou desse esforço não são fotografias de cenas, e sim cópias obtidas por contato. Num procedimento de 1833, ele escureceu uma placa de vidro com fuligem, gravou nela o desenho com uma ponta e apoiou a placa sobre papel sensibilizado com nitrato de prata. A placa protegia o restante do papel da luz e preservava o traço, o que produzia uma imagem positiva, diferente do negativo que ele observara em outra experiência.

Convém uma distinção que costuma se perder. Sobreviveram três desses objetos, de cerca de 1833: a cercadura de um diploma maçônico e dois ligados a rótulos de vidros de farmácia, entre os registros fotográficos mais antigos preservados nas Américas. Em 2023, uma análise por fluorescência de raios X, conduzida por Getty Conservation Institute, Universidade de Évora, Instituto Moreira Salles e Instituto Hercule Florence, identificou os metais que formavam cada imagem, prata no diploma e ouro nos rótulos, e indícios de proteína, possivelmente urina, nas peças dos rótulos. O uso do cloreto de ouro reforça a hipótese de que Florence foi, de fato, um dos primeiros a empregar esse composto na fotografia.

O que Kossoy provou

Por mais de um século, esse feito permaneceu quase desconhecido. Quem o retirou do anonimato foi o historiador e fotógrafo Boris Kossoy. A partir de 1976, em pesquisa depois publicada como o livro “Hercule Florence: 1833, a Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil”, Kossoy reconstituiu os experimentos com base nos manuscritos e demonstrou que houve, de fato, uma descoberta autônoma no interior paulista, mantida praticamente no anonimato por cerca de 140 anos.

O adjetivo importa. Kossoy fala em descoberta isolada, não em disputa por quem chegou primeiro. Florence inventou sem contato com o que se fazia na Europa, e por isso mesmo sua contribuição não circulou nem influenciou o curso da técnica. Segundo Kossoy, “Florence foi um dos grandes inventores da fotografia”. A frase reconhece o mérito e, ao mesmo tempo, aceita o limite: inventar e ser reconhecido são coisas diferentes, e dependem de acesso às redes que transformam uma ideia em marco.

A janela gradeada da abadia de Lacock, fotografada por William Henry Fox Talbot em 1835, exemplo do processo por negativo que originou a fotografia moderna. Crédito: William Henry Fox Talbot. Domínio público via Wikimedia Commons.

Paris, Londres e uma abadia inglesa

Florence não estava sozinho no mundo, estava sozinho no Brasil. Na mesma janela de tempo, ao menos outros três nomes perseguiam a mesma ideia. Nicéphore Niépce produziu, por volta de 1826, a imagem fixada mais antiga que sobreviveu, e morreu em 1833, antes de ver o invento tornar-se público. Na Inglaterra, William Henry Fox Talbot fotografou uma janela gradeada de sua casa, a abadia de Lacock, em 1835, e desenvolveu um processo baseado em negativo, que permite tirar cópias, tornado público em janeiro de 1839. É desse caminho, e não do daguerreótipo, que descende a fotografia moderna.

Havia ainda Hippolyte Bayard, que obtinha positivos diretos sobre papel e realizou, em 24 de junho de 1839, uma das primeiras exposições públicas de fotografias de que se tem notícia, com cerca de trinta imagens. Bayard foi convencido por François Arago a não apresentar seu processo, para não fazer sombra ao daguerreótipo que a França queria consagrar. Anos depois, em protesto pelo esquecimento, encenou o célebre autorretrato em que aparece como um afogado, com uma legenda que acusava a indiferença das autoridades. A cena resume o que a história da fotografia faz com frequência: elege um nome e apaga os demais.

Uma época, não um pai

Cinco nomes, três países, uma janela de pouco mais de dez anos. O padrão não parece acaso, e é justamente ele o tema da próxima matéria desta série. Por ora, fica a correção de rota: a fotografia não teve um pai, teve uma época. O daguerreótipo foi o processo consagrado em 1839, mas foi a lógica do negativo, intuída por Talbot e tateada por Florence, que organizou a fotografia até a era digital.

No Brasil, o que Florence antecipou em silêncio chegaria de forma oficial no ano seguinte, quando o daguerreótipo desembarcou no Rio de Janeiro e encontrou em Dom Pedro II um entusiasta que faria da fotografia uma paixão de toda a vida. Entre a descoberta isolada de Campinas e a adoção imperial há uma distância que não é só de anos, é de reconhecimento.

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