No dia 19 de agosto de 1839, a invenção da fotografia deixou de ser segredo de laboratório e virou assunto público. Naquela tarde, em Paris, o astrônomo e político François Arago apresentou a uma plateia lotada o processo que o pintor e cenógrafo Louis Daguerre havia aperfeiçoado, o daguerreótipo. É essa data que o mundo, e o Brasil, adotaram como Dia Mundial da Fotografia. A cena costuma ser resumida como um gesto de generosidade, a França dando a fotografia de presente à humanidade. A história real é mais interessante do que o resumo, e traz uma letra miúda que quase ninguém lembra.

Uma plateia no Institut de France
Arago não improvisava. Semanas antes, em 3 de julho, ele já havia lido um relatório sobre o invento à Câmara dos Deputados, preparando o terreno político. A apresentação de agosto reuniu, em sessão conjunta, a Academia de Ciências e a Academia de Belas Artes, e atraiu tanta gente que parte do público ficou do lado de fora. O que Arago descreveu ali era um processo capaz de fixar, sobre uma placa de metal polida como um espelho, a imagem formada dentro da câmara escura.
O daguerreótipo tinha uma característica que o distingue da fotografia como a conhecemos hoje. Cada placa era uma imagem única, sem negativo, o que tornava impossível tirar cópias. Quem quisesse duas fotos iguais precisava fotografar a cena duas vezes. A nitidez dos detalhes, ainda assim, impressionou os presentes e correu o mundo em poucos meses.
A conta que veio junto
O anúncio não foi bem uma doação espontânea, foi uma compra. O Estado francês concedeu uma pensão vitalícia, de 6.000 francos anuais a Daguerre e 4.000 a Isidore Niépce, herdeiro de Nicéphore Niépce. Vale a pausa para situar esse segundo nome: Nicéphore Niépce foi quem produziu, por volta de 1826, a mais antiga imagem fixada de que se tem registro, e havia sido sócio de Daguerre até morrer, em 1833. A pensão reconhecia essa herança. Em troca do pagamento, o governo liberou o processo para uso livre, sem cobrança de licença.
A generosidade, portanto, teve um cálculo por trás. Tornar o invento público e gratuito era também uma forma de afirmar a liderança científica da França e de fixar, diante do mundo, de quem era a autoria. Difundir e ganhar prestígio eram, ali, a mesma coisa.
Cinco dias antes, em Londres
Aqui entra a letra miúda. Em 14 de agosto de 1839, cinco dias antes do anúncio parisiense, um agente de patentes chamado Miles Berry registrou o daguerreótipo na Inglaterra, em nome de Daguerre. O efeito foi curioso. A fotografia foi oferecida gratuitamente ao mundo inteiro, com uma única exceção, a Grã-Bretanha, o único país onde ainda era preciso pagar para usar o processo. Por quase dois anos, praticar o daguerreótipo em solo inglês dependeu de licença.
A “dádiva ao mundo”, vista de perto, tinha fronteira. Isso não a torna menor, mas ajuda a ler a frase com mais cuidado. Afirmações redondas sobre generosidade costumam esconder decisões práticas de dinheiro e de poder.

O que a data celebra, afinal
Fixar essa distinção muda o sentido da efeméride. O 19 de agosto não marca a criação da fotografia, que vinha sendo perseguida por várias mãos ao mesmo tempo, e sim o dia em que uma de suas versões se tornou pública por decisão de um Estado. O daguerreótipo, aliás, acabaria superado no longo prazo por outro caminho, o do negativo que permite cópias, base da fotografia até a era digital. O processo consagrado em 1839 foi, ironicamente, o que menos se parece com o que veio depois.
Foi essa versão que, no ano seguinte, cruzou o Atlântico. Em 1840, o daguerreótipo chegou ao Rio de Janeiro e encontrou um entusiasta improvável, o jovem imperador Dom Pedro II, que faria da fotografia uma paixão de toda a vida. Mas essa é a história da chegada, não a da invenção. E a da invenção, como veremos nos próximos textos desta série, não cabe numa só cidade nem num só nome.

