Na véspera da subida à Pedra Furada, o primeiro PhotoTrekking do Câmera e Luz fez uma parada de história e de estrada de ferro. Visitamos as duas bocas do Túnel da Mantiqueira, do lado de Passa Quatro, em Minas Gerais, e do lado de Cruzeiro, em São Paulo, e fotografamos dentro e fora dele. O túnel, de cerca de 997 metros, tem duas faces. De um lado, uma ferrovia imperial de 1884 e as marcas da guerra de 1932. Do outro, um trem turístico que voltou a subir a serra por Minas, mas parou no meio do caminho de São Paulo.
A parada não foi ao acaso. Uma fotografia feita por Adilson Martins no túnel recebeu uma Menção Honrosa, no ano passado, no Philophoto. E o que o grupo viu do lado paulista, obras interrompidas em um trecho já reformado, é hoje o principal obstáculo entre o túnel e a ligação ferroviária que se tenta reconstruir.

Uma ferrovia inaugurada por Dom Pedro II
A Estrada de Ferro Minas e Rio ligava Cruzeiro, no vale do Paraíba paulista, ao sul de Minas. Segundo registros históricos e o material da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, a linha foi inaugurada em 14 de junho de 1884, com a presença do imperador Dom Pedro II, que fez a primeira viagem do trecho e já visitara as obras do túnel dois anos antes. A concessão original passou pelas mãos do Visconde de Mauá, e o túnel, de 997 metros, foi executado sob responsabilidade do engenheiro inglês Herbert E. Hunt, nos quilômetros 23 e 24 da ferrovia, na divisa entre São Paulo e Minas.
Há uma coincidência de calendário que não escapou ao grupo. A ferrovia foi inaugurada em 14 de junho, a mesma data em que, 142 anos depois, subiríamos a Pedra Furada.


As marcas de 1932
O túnel entrou de vez para a história do país meio século depois. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, o conflito que opôs São Paulo ao governo federal de Getúlio Vargas entre julho e outubro daquele ano, a Serra da Mantiqueira virou frente de batalha. Conforme os registros históricos e a ABPF, o túnel foi o ponto máximo do avanço das tropas paulistas e um dos pontos de resistência das forças legalistas. As paredes ainda guardam marcas de tiros e estilhaços.
A própria toponímia registra o episódio. A estação que servia o túnel, antes chamada apenas de Túnel, passou a se chamar Coronel Fulgêncio, em referência a Fulgêncio de Souza Santos, que comandava o 7º Batalhão da Força Pública mineira, ao lado das forças legalistas, e morreu nos combates da serra em 30 de julho de 1932.

Fotografar dentro da montanha
Fotografar um túnel de quase um quilômetro é um exercício de luz escassa. A boca oposta funciona como uma fonte de luz distante, que recorta silhuetas contra um arco claro e obriga a câmera a escolher entre preservar o escuro do interior ou o brilho da saída. Foi esse contraste que o grupo procurou nas duas entradas, a mineira e a paulista. O tema conversa com o que o clube já discutiu em uma palestra sobre fotografia em expedições de montanha, e ajuda a explicar por que a parada no túnel abriu a primeira edição do PhotoTrekking, cuja subida ao cume é o tema da primeira matéria desta série.


O trem que voltou pela metade
O túnel voltou a receber trens, mas por um lado só. Do lado de Passa Quatro, a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária restaurou a estação Coronel Fulgêncio em 2004 e, desde então, opera o Trem da Serra da Mantiqueira, que percorre cerca de dez quilômetros da estação central de Passa Quatro até o alto da serra, junto ao túnel. A tração fica a cargo da locomotiva 327, uma máquina a vapor construída em 1928 pela inglesa Beyer, Peacock and Company, em Manchester, ainda alimentada a lenha, a mesma origem inglesa da engenharia que abriu a ferrovia no século 19. Do lado de Cruzeiro, a mesma associação toca o projeto Expresso Mantiqueira, que tenta reconstruir a ligação de trem entre a cidade paulista e Passa Quatro, desativada desde o início dos anos 1990.
O primeiro trecho paulista já voltou aos trilhos. Cerca de seis quilômetros entre a estação central de Cruzeiro e a Estação Rufino de Almeida foram reconstruídos e passaram a receber passeios em 2025. Segundo a ABPF, a obra tem apoio institucional da Prefeitura de Cruzeiro e doação de materiais da CPTM, e aparece citada como alinhada ao programa estadual SP nos Trilhos.



O elo que falta na serra
O reencontro dos dois lados esbarra no trecho mais difícil. Do lado paulista, a reconstrução chegou até a Estação Rufino de Almeida, ao pé da Serra da Mantiqueira, e é dali para cima que restam cerca de dezoito quilômetros de subida até o Túnel da Mantiqueira. É nesse trecho, ainda sem trilhos em operação, que as obras se detêm. Segundo a ABPF, essa etapa está em planejamento, sem data definida, porque depende de recursos próprios da associação.
Enquanto o elo não se fecha, a serra tem dois passeios que não se tocam: o Trem da Serra da Mantiqueira, que sobe de Passa Quatro até o túnel, e o Expresso Mantiqueira, que parte de Cruzeiro e para ao pé da serra. Unir as duas pontas transformaria os passeios em um único trajeto de trem entre São Paulo e Minas, pela paisagem da Garganta do Embaú.
Entre a ferrovia imperial, a guerra de 1932 e um trem que voltou pela metade, o Túnel da Mantiqueira guarda mais do que cabe em uma travessia. Para o grupo, foi a porta de entrada da serra, antes mesmo do primeiro passo na trilha.

