Imagens têm o poder singular de nos transportar. Fotógrafos e videomakers cumprem um papel essencial ao revelar paisagens, histórias e fenômenos que, para a maioria das pessoas, permaneceriam distantes, invisíveis ou inacessíveis. Seja ao documentar uma realidade distante, denunciar um problema ambiental ou simplesmente encantar com a beleza de um instante congelado no tempo, a imagem tem a força de criar conexão, despertar curiosidade e ampliar repertórios. Ao longo das últimas décadas, aprendemos que uma imagem bem construída não apenas informa, mas influencia como percebemos e interpretamos o mundo. Em tempos de excesso de estímulos visuais, são justamente essas imagens – pensadas com intenção, técnica e sensibilidade – que conseguem atravessar o ruído e permanecer na memória.
Quando o assunto é olhar além do nosso cotidiano imediato, poucas linguagens visuais são tão poderosas quanto a astrofotografia. Mais do que uma especialidade técnica, ela é uma ponte entre o ser humano e as maravilhas do universo – as mesmas que fascinam nossa espécie desde as primeiras civilizações. Muito antes de telescópios, sensores e longas exposições, o céu já servia como mapa, calendário e fonte de mitos. Hoje, ao registrar a Via Láctea, um alinhamento planetário ou o rastro sutil de estrelas cruzando a noite, a astrofotografia resgata esse vínculo ancestral e o traduz para a linguagem contemporânea da imagem.

O paradoxo é que, justamente no momento em que temos mais recursos tecnológicos para registrar o céu, a maioria das pessoas deixou de ter acesso a ele. Dados obtidos a partir de mapeamentos globais de poluição luminosa agrupados no estudo New World Atlas of Artificial Night Sky Brightness, publicado em 2016 na revista Science Advances, indicam que cerca de 83% da população mundial vive sob céus poluídos pela luz artificial – percentual que ultrapassa 99% na Europa e nos Estados Unidos. Como consequência, a Via Láctea já não pode ser vista por mais de um terço da humanidade.
A Escala de Bortle, amplamente utilizada por astrônomos amadores e astrofotógrafos, ajuda a dimensionar essa perda ao classificar a qualidade do céu noturno em diferentes níveis. Enquanto um céu de classe 1 ou 2 permite observar a Via Láctea, milhares de estrelas, algumas nebulosas e galáxias vizinhas com riqueza de detalhes, um céu de classe 8 ou 9 – comum em grandes metrópoles como São Paulo – restringe a visão a poucos astros brilhantes, como a Lua, alguns planetas e as poucas estrelas mais brilhantes.
Para encontrar um céu minimamente escuro, um morador da capital paulista precisa viajar centenas de quilômetros. Em questão de uma geração o céu estrelado deixou de ser paisagem cotidiana e passou a ser destino turístico especializado.
Essa perda, no entanto, vai muito além da frustração de quem fotografa ou estuda o céu. O uso indiscriminado de luz artificial – especialmente luzes frias, excessivas e mal direcionadas – tem impactos diretos sobre a biodiversidade e sobre a nossa própria saúde.
Vagalumes, por exemplo, dependem da escuridão para se reproduzir, e suas populações vêm diminuindo drasticamente em diversas regiões. Aves migratórias também sofrem: em Nova York, o memorial do 11 de Setembro passou a apagar suas potentes luzes durante períodos críticos de migração, com base na colaboração entre voluntários e cientistas que monitoram a aproximação de grandes bandos, evitando a desorientação que levava milhares de aves a colisões com prédios e exaustão.
Além disso, o excesso de luz noturna interfere no ciclo circadiano de inúmeros organismos, incluindo os humanos, afetando sono, metabolismo e bem-estar. É importante reconhecer: esse é um problema criado por nós mesmos, resultado direto das escolhas que fazemos ao iluminar nossas ruas, fachadas e propriedades.

O cenário se torna ainda mais preocupante quando surgem propostas que tratam a noite como um espaço a ser “corrigido”. Um exemplo recente é o da startup californiana Reflect Orbital, que propõe lançar satélites equipados com grandes espelhos para refletir a luz do Sol durante a noite, ampliando a produção de energia solar. A ideia, ainda em fase conceitual, levanta uma questão incômoda: será que já exploramos de forma eficiente todo o potencial da energia solar durante o dia para justificar uma solução que pode agravar exponencialmente a poluição luminosa? Transformar a noite em uma extensão artificial do dia pode parecer inovador sob a ótica tecnológica, mas ignora impactos ambientais, culturais e científicos profundos – incluindo a própria inviabilidade futura da astrofotografia.
Diante disso, a discussão sobre a preservação do céu escuro torna-se urgente – e nós, fotógrafos, temos um papel estratégico nesse movimento. As ações começam em escala individual, com escolhas mais adequadas de iluminação, alinhadas a diretrizes como os Cinco Princípios de Iluminação Externa Responsável, que defendem o uso consciente, direcionado e adequado da luz. No campo coletivo, é possível apoiar e se engajar com organizações como a DarkSky International, dedicada exclusivamente à preservação do céu noturno e que atua globalmente por meio de uma rede de embaixadores, pesquisadores e comunidades certificadas, pressionando governos e legisladores a estabelecer normas mais responsáveis.

Esse debate, inclusive, começa a avançar também no Brasil. Tramita atualmente no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 5103/2025, que propõe reconhecer a poluição luminosa como crime ambiental. Sua aprovação representaria um marco importante para o reconhecimento desse problema no país e para o fortalecimento de políticas públicas voltadas à proteção do céu noturno.
Mais do que acompanhar sua tramitação, cabe à sociedade participar dessa discussão e compreender que o excesso de luz artificial não é apenas um incômodo visual, mas um problema ambiental, científico e de saúde pública.
Em um ano eleitoral, essa reflexão ganha ainda mais importância. Preservar o céu noturno também depende das escolhas que fazemos nas urnas, da atenção às pautas ambientais e do entendimento sobre quais representantes atuam em favor — ou negligenciam — a proteção do patrimônio natural e da qualidade de vida coletiva.
A fotografia ensina que nem toda luz revela. A mesma luz que permite a fotografia, em excesso, ofusca o objeto fotografado. Preservar a noite não é apenas garantir o futuro da astrofotografia — é proteger um bem comum que, se negligenciado, pode desaparecer silenciosamente, luz após luz.



Coloca em evidência um assunto de extrema importância! Parabéns pelo excelente artigo Fábio Monfrin!
Obrigado, Danilo. Pra ter uma noção, apesar de uma petição com mais de 12 mil assinaturas para proibir os planos da Reflect Orbital, as autoridades dos Estados Unidos autorizaram o lançamento de um primeiro satélite equipado com os espelhos de forma experimental. Muito triste assistir isso acontecer.
Muito bom! Conversa com o trabalho do Ricardo Takamura.
Com certeza! O Ricardo é uma das fontes de inspiração para o meu trabalho.