Val Vieira vive de fotografia de família há mais de dez anos. Sócia da Babuska Fotografia e Filme, que hoje atende clientes em três praças, e comanda o Método Babuska, programa em que ensina outras fotógrafas a organizar o próprio negócio. Nesta entrevista, concedida a Lívia Garcia, fotógrafa associada ao Fotoclube Câmera e Luz, ela recusa a separação mais comum do meio, a que opõe fazer arte a ganhar dinheiro, e fala de trajetória, memória, mulheres na profissão e maternidade.

Da paixão ao ofício
Lívia Garcia: Você vive 100% da fotografia há mais de dez anos. Em que momento percebeu que ela tinha deixado de ser só uma paixão e virado o seu jeito de viver e enxergar o mundo?
Val Vieira: Acho difícil traçar essa linha entre deixar de ser paixão e virar um jeito de enxergar o mundo. Mais fácil é dizer quando ela deixou de ser só paixão e virou profissão. Aí entra um olhar mais financeiro, outra dedicação, a expectativa de um retorno para o sustento. Como jeito de enxergar o mundo, penso nela como uma maneira de me construir como pessoa. É uma ferramenta de autoconhecimento. Em cada encontro com quem eu fotografo, deixo um pouco de mim e levo um pouco da pessoa. A fotografia é esse lugar de encontros e conexões.
O sinal que veio de uma reprovação
Lívia Garcia: Quando você olha para a Valéria do começo da carreira, mudaria alguma coisa? E qual foi o momento em que pensou em desistir?
Val Vieira: Não mudaria nada, porque fiz o melhor que dava nas condições que eu tinha. É fácil olhar para trás hoje sabendo o que sei. Mas desistir eu pensei muitas vezes. Mesmo já com uma renda mais frequente, fazendo freelas, eu ainda cogitava um emprego estável, uma multinacional, e passei um tempo tentando processos seletivos. Até que veio um sinal. Vim a São Paulo para a última etapa de uma seleção de uma multinacional, eles trouxeram os candidatos, pagaram passagem, e eu não passei. Para mim foi como se dissesse: por que você ainda está dividida? Investe, mergulha na sua fotografia. Logo depois coloquei uns 16 mil reais numa mentoria, uma quantia enorme para mim na época. Olhando para trás, foi um ótimo custo-benefício, me trouxe um olhar de empresa que levo para qualquer coisa que eu faça. Hoje eu penso: como eu ia entrar numa empresa dos outros, sem controlar as decisões? Empreender já depende de muitos fatores que não dependem de mim, imagine ser funcionária. Conheço gente demais que perdeu o emprego do dia para a noite. Prefiro que dependa de mim. Com o tempo você entende o que fazer para gerar cada resultado, o cliente te indica, vem outro, e o negócio fica até mais previsível do que trabalhar para os outros.
O que uma foto guarda
Lívia Garcia: Quando você fotografa uma família, o que está tentando guardar, as pessoas ou as relações? E o que faz uma imagem virar memória de verdade?
Val Vieira: Fotografo mais as relações do que os indivíduos. Na fotografia de família a gente encontra a pessoa dentro de um papel, o pai, a mãe. Com a mulher eu consigo ir além do papel, acessar a mulher com suas dores, suas questões, a nova relação com o corpo, os medos. Com o homem tenho mais dificuldade, acabo vendo mais o pai. No fim, fotografo o casal, o vínculo. Sobre a memória, tem a ver com temporalidade. A gente olha uma foto dos anos 2000, preto e branco com um detalhe vermelho, e acha brega, mas aquilo carrega uma linguagem do tempo, fala de como era ser noiva naquela época. Hoje são os tons terrosos, essa busca de minimalismo, e um dia vão olhar e também vão datar. Todo retrato de família é memória porque carrega a realidade de um tempo: como as pessoas se vestiam, o equipamento que a gente usava.
Lívia Garcia: Se daqui a muitos anos uma família abrir um álbum feito por você, o que gostaria que ela sentisse?
Val Vieira: Gostaria que fosse uma experiência de reencontro, de encontrar uma versão antiga de si mesmo, o mais verdadeira possível. A gente muda muito ao longo dos anos. Queria que as pessoas se reconhecessem na foto, que não fosse só uma versão fotogênica, mas uma imagem que transmita a singularidade de cada um: o jeitinho, as roupas daquela época, os hábitos da família. Acho isso muito bonito.
A imagem no tempo do excesso
Lívia Garcia: Hoje a gente produz e consome imagens o tempo todo. O que ainda faz uma fotografia parar alguém e permanecer na memória?
Val Vieira: Sou um pouco descrente das fórmulas. Nem a fotografia de guerra impacta como antes. Tem várias guerras acontecendo agora e as pessoas já não se comovem como se comoviam com as fotos da Primeira e da Segunda Guerra, que eram famosas e repercutiam. A gente ficou meio anestesiado, e o ser humano ainda tende a ser mais fisgado pelo ruim do que pelo bom. Por isso desconfio de receita. Para mim é mais uma sintonia individual, uma conexão entre quem cria e quem contempla, do que uma fórmula específica. Na pós-graduação, um professor dizia que o que a gente tem hoje nem deveria se chamar fotografia, que a fotografia digital deveria ser outra categoria, porque com o excesso e a velocidade a gente não assimila nem grava da mesma forma. Fiquei pensando nisso. O Bauman fala dessa modernidade líquida, e vale para a imagem, tudo foi ficando mais volátil, mais líquido de significado. Mesmo assim, não sou pessimista. Acho que o que faz uma foto permanecer é o encontro entre algo que já existe dentro de quem olha e algo que o autor conectou. Não existe fórmula. E depende também de onde você consome: uma foto numa exposição pesa diferente de uma foto no meio do feed. Tem até um lado positivo do excesso, há imagem suficiente para que, em algum momento, cada pessoa seja tocada por alguma.
Um olhar brasileiro
Lívia Garcia: Fotografar famílias é entrar em momentos íntimos. Existe alguma fotografia ou história que ficou com você depois que o ensaio acabou?
Val Vieira: Quando li essa pergunta, lembrei de uma ideia que atribuo ao Salgado: a gente não fotografa só com a câmera, mas com tudo o que viveu, com o olhar sobre o mundo, a bagagem.
Lívia Garcia: E como você enxerga a fotografia brasileira atualmente? Existe algo no nosso olhar que nos diferencia do restante do mundo?
Val Vieira: Acho que a fotografia brasileira se diferencia pela nossa cultura, latina, mais quente, de um povo que faz muito com pouco e que, mesmo com toda a história de exploração, é forte, resiliente, e ainda festeja. Quando você vai para fora, vê que as pessoas não festejam como a gente, não são tão quentes. Nosso olhar carrega isso, essa maneira de enxergar as relações e de exaltar a simplicidade como algo positivo. Admiro muito o Walter Firmo, o Luiz Braga e o João Machado por esse olhar para a brasilidade, para as pessoas simples que constroem a nossa cultura.

Mulheres na fotografia de família
Lívia Garcia: A fotografia de família é um espaço muito ocupado por mulheres. Como você enxerga esse movimento e quais desafios ainda enfrentamos?
Val Vieira: Esse movimento acontece porque a família é um lugar em que a gente se sente confortável, ouvida e protagonista, por uma construção histórica. E a cliente também se sente mais confortável com uma mulher, ainda mais fotografando uma grávida, uma mãe. Tenho um homem no time, o Dudu, mas ele faz eventos, não os ensaios, porque percebo que, quando é a nossa equipe, a cliente se sente mais à vontade dentro da casa dela. Sobre os desafios, o nosso é ocupar o lugar de empresária, com tudo o que isso exige, e ser levada a sério como negócio. E, sendo honesta, o maior desafio é equilibrar tudo. Depois que casei, posso falar em primeira pessoa: a casa não é mais só minha, tem divisão de tarefas, e concilio isso com a empresa, a fotografia, as emoções dos outros e as minhas. Quantos papéis a gente precisa assumir? É aí que mora o desafio. A terapia ajuda a lidar com isso.
Lívia Garcia: E o que você aprendeu sobre o universo feminino nesse tempo fotografando mulheres?
Val Vieira: Aprendi tanto. Aprendi que a gente é muito foda, que fica escancarado como somos incríveis. E aprendi a diversidade de formas de existir e de maternar. Convivo com amigas fotógrafas que cuidam dos filhos em tempo integral e ainda batalham por um fim de semana de trabalho, e com clientes que têm outra estrutura, mais recursos. Não acho que exista hierarquia, que uma seja mais mãe do que a outra, são recursos e pressões diferentes. Isso me ensinou a julgar menos.
Lívia Garcia: Você e a sua sócia têm uma empresa de fotografia de família e não são mães. Como isso entra no trabalho?
Val Vieira: É doido, e vejo muita gente se questionando: como vou falar do universo materno se não sou mãe? De fato é desafiador. Por isso prefiro que a mãe fale. Dou o protagonismo do conteúdo para a cliente, para quem vive aquilo em primeira pessoa, porque existe um lugar de fala que é diferente. Mas o fato de nem eu nem a Liz, minha sócia, sermos mães também foi o que permitiu dar todo o gás e a dedicação que a Babuska exige. Quando eu tiver um filho, sei que muita coisa na minha relação com o trabalho vai mudar.

Arte e dinheiro
Lívia Garcia: Você acredita que dá para equilibrar a arte e fazer dinheiro? E o que as pessoas não enxergam sobre a vida de uma fotógrafa?
Val Vieira: Acredito que é totalmente possível. Existe aquele dilema: se eu agradar o cliente e ganhar dinheiro, será que traio a minha arte? Muita gente vive nesse lugar. Mas dá para criar para você e para o outro no mesmo trabalho. Entrego o retrato que a cliente quer e também entrego a foto borrada, desfocada, que é parte da minha assinatura, e faço questão de postar. A gente tem que ter padrões diferentes do cliente sobre o que é uma boa entrega, saber onde está o nosso diferencial e se nutrir dessas diferenças. Ganhar dinheiro não corrompe a minha alma artística, pelo contrário. Sobre o que não enxergam, espero que continuem sem enxergar certas coisas. Construir uma marca exige um filtro. Os conflitos internos, os bastidores, o peso das decisões, isso a gente filtra. Existem muitos bastidores que ninguém precisa saber.
Ser vista e valorizada
Lívia Garcia: Você ensina tantas fotógrafas a serem vistas e valorizadas. Olhando para a sua própria trajetória, você sente que também foi vista?
Val Vieira: Acredito que sim, e há tempos. Me sinto reconhecida pelo meu olhar, pela minha maneira de criar, pela marca que construí. Sinto isso quando entro na casa das famílias, pela forma como sou tratada, pela confiança em cada direção que dou. Para mim, ser vista e valorizada também tem a ver com reconhecimento financeiro, com a pessoa te escolher e pagar pelo seu trabalho. A cada reajuste que a gente faz, vejo clientes continuarem e outras chegarem, e nesse mundo capitalista o dinheiro também é uma forma de demonstrar confiança. Lembro da fase em que eu não me sentia tão reconhecida, porque comecei muito nova. Cheguei na casa de uma gestante e ela falou: nossa, você é muito novinha, será que vai dar conta? Dei conta, ela virou cliente fiel. Foi um caminho de formiguinha, que começou com as primeiras pessoas que confiaram e me deram a oportunidade de amadurecer.
O que ainda quer fotografar
Lívia Garcia: Existe algo que você ainda sonha em fotografar, mas sente que ainda não chegou o momento certo?
Val Vieira: Definitivamente, sim. Muitas coisas, principalmente de forma não comercial. Tenho muita ideia de projeto, a maioria voltada para fotografia de rua e documental, talvez algum projeto com quadros. São desejos mais autorais que eu ainda não tive tempo de executar como gostaria. Mas existem, e são muitos.





